Um café na Internet
Sinto sede, mas tento não beber porquanto sei que, só ultrapassada a zona industrial, poderei reabastecer-me em líquidos: daqui por mais de duas horas. Caminho por um estreito passeio tendo à direita, até ao fim do mundo, parece-me, uma correnteza de fábricas e mais fábricas, armazéns, materiais, mercadoria, parques de estacionamento, contentores gigantes de pneus, metal, plástico para reciclagem, limitada na largura por uma colina leprosa da qual, talvez para aumentar a superfície industrial, retiraram pedra, à esquerda passam camiões atrás de camiões, ao lado de camiões atrás de camiões e, do outro lado, vejo outra correnteza de fábricas, armazéns, parques de estacionamento para os camiões, Talleres La Rápida, torres industriais, pontes rolantes, mercadoria à espera de transporte ou arrumação, gruas coloridas, aranhas de ferro, ácaros gigantes, monstros múltiplos para os quais me falta vocabulário e entendimento, um atrelado de camião com blocos de pedra, postes de alta tensão, um universo vazio de seres bípedes, integralmente pragmático, imagino eu, com cores neutras e poeirentas, onde de súbito surge a coroa monárquica num marco de correio amarelo: aqui muito insólita. Entre Orbenlle e o Porrinho há oito quilómetros. Sigo do Sul para o Norte e, a esta hora, tenho o sol nas costas. Mau cheiro. Carros e camiões a grande velocidade, cuja deslocação de ar me desequilibra, levanta um lixo e uma poeira sem dúvida tóxicos, que sinto nos olhos, no nariz, colados à pele… Levo a garganta seca, os olhos a picar, as canelas a escaldar. Não há sítio onde me sente durante um instante: avanço. A reverberação da luz cega-me, a sede atormenta-me, transpirei toda a água do corpo – ou quase. Avisto alguns metros de verdura com uma tabuleta por detrás da cerca: “Refuxio de Fauna”. Uma miragem? A vegetação esconderá algum parque de estacionamento: a única espécie aqui sobrevivente parece ser o camionista.
A certa altura, insolação, desidratação, algo assim, sinto-me na verdade mal. Uma tontura. Consigo todavia avançar.
Chego enfim à ponte para peões, entre a linha do comboio e um viaduto, três sobrepostos níveis para distintos meios de circulação, a qual me permite alcançar a estrada por onde prossigo, do outro lado da linha, um entrançado viário com armazéns, postes de alta tensão e até árvores pelo meio que, apesar de tudo, admite a existência dos peões: ao contrário do que se passa em Portugal nos equivalentes contextos. (Esta diferença revela muito sobre as respectivas sociedades e quem as governa.) Do outro lado sucedem-se as empresas. Surgem algumas casas. Entro no primeiro café, talvez um bar, bebo um copo de leite, peço que me encham as garrafas, mas não me sento; não gosto do ambiente. E chego a uma capela que tem na fachada uma inscrição com a data de 1640… Um espaço onde poderei enfim sentar-me. (Já no ano passado aqui fizemos uma paragem.)

