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ALGUMAS OBSERVAÇÕES TECIDAS SOBRE AS DECLARAÇÕES DE DURÃO BARROSO RELATIVAMENTE À FRANÇA, ALEMANHA E A PORTUGAL, por JÚLIO MARQUES MOTA

Algumas observações tecidas sobre as declarações de Durão Barroso relativamente à França, Alemanha e a Portugal

 Júlio Marques Mota

PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)

Mas voltemos a Durão Barroso. Dir-me-ão, não é verdade o que em cima se lê, não, Durão Barroso, está a atacar uma das bases da crise, ou seja, a atacar os excedentes excessivos da Alemanha e portanto não o poderemos acusar perante estes ataques à potência alemã.. Mas a Alemanha já respondeu imperialmente quando reagiu às duras críticas oficialmente feitas pela Administração americana, argumentando que as suas exportações são o motor da economia mundial! Estas declarações colocam a nu toda cobardia da UE uns meses após a eclosão da crise, que ao invés de trilhar por um caminho de criação de uma política expansiva e coordenada a nível europeu, que deveria abranger diversos níveis, entre eles: a política monetária, política financeira, política industrial, política de transportes e grandes obras públicas, política de ensino e de investigação, optou antes por uma política de austeridade para os países em dificuldade.

Com a linha seguida e tudo o que isso acarretou e acarreta a Alemanha sai favorecida:

i)        Economias brutais no refinanciamento da sua dívida pública, pela fuga massiva de capitais para a zona euro/marco, já calculadas num valor situado entre 60 e 80 mil milhões de economias;

ii)      Economias brutais em custos de formação de mão-de-obra, pois as vagas de migrações já formadas, emigração selectiva, dispensa-os. Adicionalmente uma contenção salarial provocada por esta mesma via, a presença de emigrantes altamente qualificados e ao mais baixo preço;

iii)    Aumento de exportações de bens de luxo a satisfazer uma procura crescente perante uma também crescente desigualdade de rendimentos que se constata na Europa, desigualdade está alcançada sob o comando de Durão Barroso.

Sobre temáticas á volta destes detalhes nunca se ouviu falar o senhor Durão Barroso E podíamos continuar. Mas que nos dizem os americanos no relatório emitido pelo Secretário de Estado do Tesouro?

‘‘A retoma da zona euro tem estado substancialmente desfasada da retoma de outros países desenvolvidos, levando a que a actividade económica se situe num nível baixo. O PIB da zona euro ainda permanece abaixo do seu pico em cerca de 3 por cento do valor alcançado no primeiro trimestre de 2008, a procura privada está quase 6% abaixo dos níveis pré-crise, o desemprego está em cerca de 12,0% e a periferia permanece numa recessão global. Enquanto os dirigentes da zona euro tem estado a aplicar importantes medidas para estabilizar a economia, permanecem contudo fortes ventos macroeconómicos e financeiros em sentido contrário. O impulso orçamental de 2013, embora mais moderado do que 2012, continua a ser negativo. O consumo privado, de longe o maior componente da procura interna, poderá assim continuar a ser constrangido tanto quanto o rendimento disponível em termos reais permaneça sob forte pressão devido ao elevado desemprego, ao baixo crescimento dos salários reais e aos impostos mais elevados. Enquanto isso, o investimento, que tem tido uma contribuição significativa para a fraca procura doméstica, tem estado a dar sinais de uma recuperação nascente mas, em geral, permanece fraco. Além disso, enquanto a fragmentação financeira diminuiu na base das acções levadas a cabo pelo BCE, as condições de concessão de empréstimos permanecem apertadas em muitos países e, juntamente com a desalavancagem, actuará como um travão ao crescimento. A Comissão Europeia (CE) e o FMI estimam que em 2013 a economia da zona euro será sujeita a uma contracção de 0,4%, considerando que o PIB deverá crescer a um ritmo tímido de 1% em 2014.

Os países da zona euro em situação de défice reduziram drasticamente os seus défices na balança corrente, contrariamente aos países excedentários dessa mesma zona. Em termos de conjunto, a balança corrente da zona euro entrou em excedente em 2012, tendo aumentado ainda mais no 1º semestre de 2013 para quase 2,3% do PIB. Os Países Baixos e a Alemanha continuaram a usufruir de excedentes da balança corrente desde 2011, enquanto que os défices da balança corrente, dos periféricos, da Itália, de Espanha e das economias mais pequenas da periferia contraíram-se significativamente, principalmente como resultado de um colapso da procura interna e da queda dos salários.

A Irlanda, Itália e Espanha têm registado excedentes nos últimos trimestres, e Portugal passou a ter excedente no segundo trimestre de 2013.

A balança corrente excedentária da Alemanha, entretanto, subiu acima dos 7% do PIB no 1º semestre de 2013, com as exportações líquidas ainda a representarem uma parcela significativa () do crescimento total no segundo trimestre, sugerindo que o reequilíbrio não está ainda a ocorrer pelo lado do mercado interno. Para facilitar o processo de ajustamento dentro da área do euro, os países com grandes e persistentes excedentes precisam de tomar medidas para impulsionar o crescimento da procura interna e de reduzir os seus excedentes. A Alemanha tem mantido um grande excedente na balança corrente durante toda a crise financeira da zona euro, e em 2012, o excedente nominal da sua balança corrente foi mesmo maior do que o da China.

O ritmo de crescimento anémico da Alemanha em termos de procura interna e a dependência das exportações têm dificultado o reequilíbrio e, isto numa altura em que muitos outros países da zona euro têm estado sob forte pressão para reduzir a sua procura e comprimir as suas importações, para conseguirem realizar o seu ajustamento económico. O resultado desta situação tem sido um enviesamento deflacionista sobre a zona euro bem como sobre a economia mundial. Um forte crescimento da procura interna nos países com posições excedentárias, particularmente na Alemanha, ajudaria a tornar mais viável um reequilíbrio durável dos desequilíbrios na área do euro. O procedimento macroeconómico anual dos desequilíbrios da União Europeia desenvolvido como parte do aumento da sua vigilância deve ajudar a sinalizar que se estão a criar desequilíbrios internos e externos; no entanto, o procedimento continua a ser um pouco assimétrico e não deu a atenção necessária para com os países de grandes e persistentes excedentes externos como a Alemanha.

Em 2012, a zona euro, de forma agregada, empenhou-se fortemente numa das mais agressivas políticas de consolidação orçamental das economias avançadas, apesar de, ter o menor défice orçamental ajustado pelas suas variações cíclicas e de ter igualmente perspectivas de crescimento económico fraco. Enquanto o ritmo de consolidação se moderou um pouco este ano, o défice orçamental estrutural na zona euro deverá diminuir apenas de 0,9% do PIB em 2013. No âmbito do Procedimento relativo aos défices excessivos, a maioria das principais economias da zona euro tinham-se inicialmente empenhado em reduzir os défices orçamentais públicos para menos de 3,0% do PIB até 2013 (…). No entanto, continuamos preocupados quanto ao ritmo adequado de consolidação orçamental e quanto à necessidade de proporcionar espaço para respostas políticas contra-cíclicas garantindo trajectórias credíveis para uma sustentabilidade orçamental ao longo de um período de tempo que é sensível à evolução cíclica”.

Face a um ataque em forma conduzido pelo governo americano contra a política seguida por   Bruxelas, Frankfurt e Berlim, e de que não vemos nenhuma crítica semelhante nos partidos do arco do poder, socialistas ou não, cremos pois que se trata de uma manobra de diversão de Bruxelas para acalmar os americanos e simultaneamente para verdadeiramente não atacar os alemães. Uma perfeita manobra de um Leopardo, de que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique exactamente na mesma. é disto que se trata nesta simulação de critica à Alemanha. Vejamos então a posição assumida face a um outro fantasma político, François Hollande. Já não nos bastava Belém, vem agora o Eliseu! E, já agora, quem se seguirá a seguir, nesta Europa transformada numa real máquina de criação de verdadeiros zombies políticos? Todavia, os números da dívida em questão para a França e para o ano que se segue são profundamente alarmantes face a esta desgovernação da Europa.

(continua)

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Para ler a Parte III deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/23/algumas-observacoes-tecidas-sobre-as-declaracoes-de-durao-barroso-relativamente-a-franca-alemanha-e-a-portugal-por-julio-marques-mota-3/

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