Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 143 – por Manuela Degerine
carlosloures
O resto é cantiga
O albergue de peregrinos foi instalado num bonito palacete: a Casa da Torre. Após os rituais duche, refeição e lavagem da roupa, dou um passeio por Redondela, curto, pois sinto frio; uma coisa é caminhar com passo rápido e outra é deambular de nariz no ar. Concluo – por ora – que no Caminho de Santiago descobrimos a parte mais bonita da urbe: os espigueiros, as ruas com lajes, os edifícios de granito, as varandas com sedum nas grades… Redondela tem cabras a pastar perto do centro mas, ao mesmo tempo, alguma violência rodoviária manifestada em buzinadelas e velocidades descontroladas. A beira da ria de Vigo, situada longe demais para, após uma etapa com mochila, mesmo curta, eu me aventurar naquela direção, deve ser muito bonita; terei portanto que cá voltar como turista – em particular – para visitar a ilha de S. Simão: provavelmente a do poema de Meendinho (cantado por Amália).
Sedia-m’eu na ermida de Sã Simhõ
e cercaron-me as ondas, que grandes son!
eu atendend’o meu amigo
eu atendend’o meu amigo!
Esta ilha teve, entre outras funções, as de lazareto nos séculos XIX e XX, de campo de concentração na Guerra Civil… Interessa-me – muito – compreender in loco, se possível, o referente espacial do poema. Quando o analisei com os alunos, passámos horas a debater hipóteses: a situação da ermida, a condenação social… Chegámos a desenhar uma ilha à qual fosse possível chegar a pé durante a maré baixa; como o Mont Saint-Michel. Verdade é que ainda agora jovens de dezassete anos – nascidos e criados em França – se podem interessar por esta rapariga de há oito séculos. (E vários alunos escolheram o poema de Meendinho para a lista dos textos estudados que levaram para a oral de Português.)