Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 147 – por Manuela Degerine

Partida de Redondela

O albergue possui radiadores em ferro fundido, excelentes para secar roupa de linho (as minhas peúgas) e algodão (a minha camisola), toda a dificuldade consistindo em apanhar um livre porém, como aqui durmo pela segunda vez, antecipei ontem a concorrência: visto a camisola seca!

A etapa de Redondela a Pontevedra totaliza entre dezanove e vinte e um quilómetros: consoante os roteiros. Saio do albergue, logo me cai uma chuvada em cima, a seguir atravesso uma zona de nevoeiro, sou depois tenuemente borrifada e, já nos arredores de Pontevedra, começo enfim a ver o sol. Sucedem-se espigueiros, quintais cultivados, prédios novos e, mais adiante, subo por uma bonita mas perigosa estrada, estreita, entre muros, com automobilistas inurbanos, dir-se-iam portugueses, residem decerto longe da cidade, saem sem dúvida tarde de casa, não respeitam os limites de velocidade e, quando avistam um peão, em vez de abrandarem: buzinam.

Faço a primeira paragem no banco de granito ao lado de uma fonte; caminhei quatro quilómetros. Sou ultrapassada pelos eleitores de Frau Merkel e, ele por ir na subida duplamente carregado, ela por a mochila lhe pesar na consciência, ambos mostram uma fisionomia deprimida. Este lugar costuma ter vista, hoje apenas tem nevoeiro; o que não reduz o impacto estético. Saboreio chocolate, trinco uma noz. (Dormi bem: sinto-me curiosa e bem disposta.)

No ano passado – o da tendinite – estava aqui sentada, vi passar dois dirigentes dos escuteiros que caminharam do Porto a Santiago com o uniforme completo, um padre, o outro useiro e vezeiro em piadas sem graça; repetidamente representou – aliás sem qualquer maldade – um número com pé-coxinho e uma frase que não recordo, mas deixava quem o ouvia, português ou estrangeiro, assaz perplexo; creio que era para rir. Comecei a chamar-lhe “Bertolt Brecht” por ele me chamar “Mãe Coragem”… Mas também não percebeu. Ficámos portanto quites. O padre teria à volta dos quarenta anos, o acompanhante perto de setenta e havia neles uma gentileza distante, muito comum na gente ligada à Igreja; não lançariam um olhar a Jesus – um homem magro, com a túnica rota e sem cargos oficiais – mas aceitariam um convite de Pôncio Pilatos.

Prossigo por caminhos bastante enlameados, atravesso um bosque de pinheiros e eucaliptos; instalo-me no prazer da caminhada. Não ignoro que doravante o percurso será bonito até à capela de Santa Marta e a partir dali, para alcançar o albergue, restarão apenas quatro quilómetros pela beira da N-550.

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