Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 142 – por Manuela Degerine

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Mil passos

Na saída do Porrinho há uma grande rotunda, dou-lhe a volta pela esquerda sem me ocorrer que a sinalização se encontra à direita, prossegue por uma rua paralela, mais silenciosa, mais habitada, muito menos perigosa, com hortas, com pedregulhos, por lá segui no ano passado, tarde dou conta do erro, não posso atravessar, tão-pouco regrido, avanço à beira da nacional como em 2010, a causa deste erro, pois lembrava-me de caminhar pela esquerda: o stress gravou-me o sítio na memória. Como então… Camiões seguem camiões cuja corrente de ar me impele para o Porrinho; o que redobra o esforço. (E não acho tranquilizante poisar os pés a um metro dos dinossauros rolantes.)

Encontro enfim as setas amarelas quando o Caminho se afasta da nacional, agora o itinerário ladeia hortas (galegas) com couve galega, encostas de urze, giesta e madressilva… Avisto serras ao longe.

Em Mós sento-me entre a igreja e o palácio, como o arroz com legumes, sublime neste tempo e espaço: sinto um apetite fenomenal. Evoco as precedentes passagens por aqui. Em 2010 descansei neste banco; trazia uma mochila desconfortável, caminhara seis quilómetros, já me doíam as costas. Em 2011, o ano das queimaduras, dormi em Mós; no dia seguinte regressei a casa. Em 2012 a dúvida e a tendinite travavam-me o passo: não estaria a cometer um erro?

Sinto-me hoje em harmonia comigo, em harmonia com o que me rodeia: o ar, o lugar, a temperatura. Converso com um homem que tem família em Lisboa. Passo pelo cruzeiro e pelo albergue, prossigo a subida para Cabaleiros; quando chego a Inxertado caminhei oito quilómetros. Mais adiante há um marco miliário (“milia passuum”, mil passos) que fazia parte da via romana de Braga a Astorga: a XIX.

A etapa de hoje é uma sucessão de encostas, subimos de vinte e nove metros (no Porrinho) a duzentos e trinta e dois (em Santiaguinho das Antas), a seguir descemos na direção de Redondela, que está situada a onze metros de altitude. Não chega a cansar os joelhos e seus tendões por a etapa ser muito curta, entre quinze e dezassete quilómetros: consoante o ponto do Porrinho onde cada roteiro coloca o início de etapa.

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