Um café na Internet
Depois do duche e lavagem da roupa, vou à casa de banho, descubro tarde demais: não há papel higiénico. Abro um pouco a porta. Uma alemã de uns cinquenta anos lava a camisola no lavatório.
– Não te importas de me passar um pedaço de papel?
A germânica senhora fita-me com perplexidade.
– Não tenho.
– Pouco importa: dois lenços de papel.
Ela hesita. (Não conheço esta latina de lado nenhum, por que razão lhe hei-de dar alguma coisa?). A situação começa a interessar-me prodigiosamente, espero com intensa curiosidade o que a alemã replicará, divertida já eu com a compra da germânica celulose, quando uma brasileira me passa dois guardanapos sem reclamar reembolso.
No rés-do-chão encontro o Cid Campeador, que deu a volta completa não só ao albergue mas até às cidades de Valença e Tui. Pergunto pelo da selecção.
– Ficou com as raparigas em Rubiães. Coitado…
Logo acrescenta:
– Da multidão que dormiu em Ponte de Lima, quantos chegaram aqui hoje? Só seis. Tu, eu, os suecos e as miúdas alemãs.
Eu cheguei muito cansada e com duas bolhas nos pés. Daqui em diante a marcha será dolorosa. Mais ainda: as picadas de Vilarinho, na zona de fricção do cimo das botas, ganharam mau aspecto e parecem até inflamadas. Sem as meias de lã, maiores do que as outras, passei a expor ao sol, por vezes, um ou dois centímetros de perna, o que pode ser perigoso: os raios solares causam-me reacções alérgicas.
Cid Campeador, verdadeiro atleta, olho vivo e pé ligeiro, projecta dormir amanhã em Redondela. Com estas bolhas, eu não irei longe, apenas até Mós, mas combinamos encontrar-nos, daqui por quatro ou cinco dias, em Santiago de Compostela.
Percorridos hoje trinta e oito quilómetros, falta-me genica para ir jantar. Faço um chá. Como o resto do pão com o resto do queijo e duas laranjas. Talvez seja do cansaço, sinto algum desânimo, o que não me é natural. Atravessarei amanhã a zona industrial do Porrinho que constitui, com a saída do Porto, com a etapa de Vila Franca à Azambuja, um dos três piores pedaços nos seiscentos e dez quilómetros do Caminho Português que conheço. Não ignoro que noutras ocasiões este pedaço indigesto representaria para mim um objecto de curiosidade… Não me encontro portanto no meu estado normal.
Como o albergue é ruidoso, por se encontrar num cruzamento, volto a pôr tampões nas orelhas.

