Parte I
Uma nova série de textos será iniciada, a partir daqui, no blog A Viagem dos Argonautas, sob o título Falemos de Economia, falemos então de Política. Iniciamo-la com um texto que para nós marca inequivocamente o rumo que a esta série queremos dar, o texto Regresso em direcção ao futuro / Será o proteccionismo o nosso futuro? A actualidade do texto de J. M. Keynes “National Self-Sufficiency“. Queremos editar textos underground, textos contra a corrente de ensino dominante em economia, queremos publicar textos onde a Economia seja o substrato e a Política o campo de concepção e de acção onde se marcam os objectivos que com a Economia se pretendem alcançar.
Inevitavelmente passarão por aqui textos explicativos, textos formativos, textos de matriz pedagógica, mas tal como nas outras séries, pretendemos que uns textos sejam o patamar de outros mais complexos, mais abstractos, que serão depois completados com textos informativos para que cada um, a começar por nós próprios, possa redesenhar a sua concepção do mundo, da política, da economia, do tempo em que se situa. Não queremos mudar o mundo, queremos dar uma achega a que o possamos melhor compreender para que todos o possamos mudar.
Textos desadequados para um blog? Não o creio. Textos exigentes, isso sim, exigentes muitos deles em termos de análise mas não é a facilitar na compreensão dos mecanismos subjacentes à Economia e com objectivos determinados politicamente que podemos avançar na nossa percepção individual e colectiva de um mundo globalizado e cada vez mais complexo. Esta é a nossa opção, este é o nosso objectivo.
O primeiro texto será apresentado em duas partes, a primeira parte um texto sobre Keynes e a segunda um texto de Keynes. Aqui, falam-nos da necessidade de revermos a nossa posição sobre o proteccionismo e de o podermos pensar como ferramenta necessária para o desenvolvimento. E vindo de Keynes, obriga-nos necessariamente a reflectir sobre o tema. Desagrade ou não. Estes dois textos, de Keynes e à volta de Keynes, são pois claramente uma pedrada no charco das águas podres com que Bruxelas, com os seus teóricos, com os seus experts, vai desconstruindo e alagando esta nossa Europa. Crime de alta traição, gritam os gaulistas em França, e somos capazes de concordar com eles. Relembremos aqui que o ministro francês da renovação do tecido produtivo, Arnaud Montebourg, falou em tempos em proteccionismo e a resposta de Bruxelas foi imediata: mandou a Paris o Comissário Karel De Gucht para que este ministro se calasse. E este calou-se.
Como exemplificação da actualidade do texto de Keynes, apresentamos uma imagem sobre a França, sobre os despedimentos, sobre o desemprego, e isto num país atolado igualmente nas políticas de austeridade impostas pelos gangs que nos comandam de Bruxelas ou de Frankfurt. Poder-se-ia falar igualmente da indústria naval e da política de Bruxelas nesta matéria e aí estaríamos a falar dos Estaleiros de Viana do Castelo, por exemplo. Mas como se sabe, Bruxelas só se incomodou em saber se o governo estava ou não a subsidiar os Estaleiros, se os estava a manter vivos em vez de os forçar a uma morte rápida, Bruxelas não se preocupa com a concorrência internacional. Não lhe diz respeito, é o que se pode pensar! Não acredito que se vão produzir mais barcos em Viana do Castelo. Os capitalistas da Martifer não são loucos. Não investem para antecipadamente ficarem a perder e sabem do que do outro lado do mar ou do mundo e a trabalhar sobre barcos tem concorrentes contra os quais não poderá nunca concorrer. Mas é de concorrência que nos fala o Ministro Aguiar Branco, é de concorrência que nos fala o seu chefe Durão Barroso, é de concorrência que nos falam o Comissário Karel De Gucht ou ainda o sinistro Pascal Lamy, mas são eles capazes de nos mostrar que contra a Europa, nos mercados internos e internacionais, os terceiros mercados, há uma concorrência não falseada e, portanto, que não há em nome deste princípio nada a fazer para impedir a Europa de se transformar num parque de fábricas abandonadas? O mundo de Bruxelas claramente não é o nosso, então. Por tudo isto, podemos mesmo dizer que Bruxelas e os Estados membros da União Europeia, citando François Heisbourg[1], “vivem fechados para sempre numa casa em que as portas e as janelas foram muradas” e para quem a realidade europeia é então apenas a ideia de que dela estas gentes idealizaram, desfasadas no tempo e no espaço dos interesses e das vivências dos povos sobre os quais impõem o seu diktat. Contrariamente a Bruxelas, vejamos o que nos diz o secretário de Estado do Tesouro americano, no texto que iremos publicar e que tem como título Report to Congress on International Economic and Exchange Rate Policies, relativamente ao segundo exportador mundial, a China, uma potência do outro lado do mar e do mundo e, agora sim, estamos a falar de concorrência:
“crítica [na China] é a remoção de distorções que levam à formação de preços claramente abaixo do preço que economicamente deveria prevalecer na utilização quer dos bens e serviços necessários na produção, quer dos factores capital e trabalho aí utilizados, ou seja, estamos com subvalorização na energia, na água, na terra, no trabalho e no capital, o que faz inclinar a balança de investimento para métodos de produção e indústrias de capital intensivo e para a indústria transformadora e mais longe do sector de serviços mais intensivo em trabalho”.
Tudo falseado portanto, tudo dito quanto à concorrência não falseada que é feita contra todas as produções europeias, na Europa e no mundo, tudo dito quanto à forma criminosa como se funciona em Bruxelas e alhures, como em Viana do Castelo se ilustrou, assim, naturalmente.
E como segundo texto desta série, um texto underground face ao pensamento dominante nesta Europa dos milhões de desempregados, iremos editar o texto do Tesouro americano a que já nos referimos extensivamente, aqui e assim visto, á luz do que pensam e fazem o Ministro das Finanças da Alemanha ou o director do Bundesbank, como um texto underground! Seguir-se-lhes-ão dois outros textos, o do economista-chefe da Comissão Europeia, Jan in ‘t Veld, Fiscal consolidations and spillovers in the Euro area periphery and core e, por fim, na primeira série de 4 textos, o relatório da Cruz Vermelha, de Outubro passado, um verdadeiro libelo contra as políticas altamente destrutivas que se têm praticado na Europa, e que tem como título: Think differently, Humanitarian impacts of economic crisis in Europe.
(continua)
______
[1] François Heisbourg, La fin du rêve européen, ed. Stock, Paris, 2013.
