FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – SELECÇÃO E TRADUÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

TEXTO 1-A: Regresso ao futuro- À volta de Keynes

Regresso  em direcção ao futuro / Será o proteccionismo o nosso futuro? A actualidade do texto de J. M. Keynes “National Self-Sufficiency“

15 novembre 2013

Por Jacques Sapir

Keynes - I

(John Maynard Keynes, “National Self-Sufficiency,” The Yale Review, Vol. 22, no. 4 (Junho de 1933), pp. 755-769).

Texto publicado originalmente em 2008 em Alternatives Économiques

PARTE II

A argumentação de Keynes, por muito brilhante que ela seja e por tão moderna que possa parecer em muitos dos seus aspectos, não deixa de levantar alguns problemas. No entanto, estes tendem a reforçar o seu argumento sobre a auto-suficiência. Não podemos ter outra reacção que não seja a de ficar surpreendidos, lendo o seu texto, pela sua defesa unilateral do comércio livre no desenvolvimento económico do século XIX. Vê-se claramente que no mínimo se trata de uma leitura anglo-centrista da história, a menos que se trate de uma precaução para não chocar o leitor potencial considerado liberal. Na verdade, com exclusão da Grã-Bretanha, todos os países hoje desenvolvidos desencadearam o seu processo de desenvolvimento através do proteccionismo. O “bloqueio Continental” napoleónico desempenhou um papel importante na acumulação de condições necessárias para a Revolução Industrial em França. Os Estados Unidos emergiram como uma força industrial através de proteccionismo e especialmente através da ” tarifa Mac Kinley “. As trajectórias do desenvolvimento do Japão, da Alemanha e da Rússia, depois no século XX, de Taiwan e da Coreia do Sul são ilustrações perfeitas das teses proteccionistas de Frederich List. [11]

Do ponto de vista teórico, sabe-se hoje que a introdução de hipóteses realistas inverte os resultados dos modelos reputados como as ferramentas que “provam” a superioridade da Livre-troca internacional. Paul Krugman ele próprio também admite que a única coisa que podemos demonstrar é a de que a situação de Livre-Troca é superior à total ausência de trocas comerciais [12]. Agora é impossível mostrar que a situação de Livre-troca é superior à do proteccionismo e, em vez disso, pode-se mostrar que este último é superior â Livre-troca numa série de situações. Estamos muito longe das convicções teóricas do Keynes de 1933. Com efeito, se combinarmos a introdução das preferências contextualizadas de estruturas com a incerteza sistémica e com as assimetrias de informação, podemos supor que num período de médio prazo os sistemas fechados não são inferiores à Livre-Troca (mas provavelmente sê-lo-iam face a sistemas de trocas reguladas por um proteccionismo posto ao serviço de uma verdadeira política industrial).

A introdução de pressupostos realistas fez saltar em migalhas o quadro referencial à Marshall ao qual Keynes continua a aderir em 1932. Na verdade, em 1944/45 Keynes ver-se-á liberto das cadeias desta corrente de pensamento económico já ultrapassada. Ele desenvolveu o que pode ser considerado como a base de uma análise macroeconómica realista da economia internacional [13]. Infelizmente, enquanto ele despendia as suas últimas forças nas negociações de Bretton Woods para arrancar à arrogância americana um sistema que tirasse as lições das crises do período de entre as duas guerras, não lhe restava mais do que alguns meses de vida. Os recentes avanços teóricos, precisamente aqueles que os defensores da economia liberal dominante se recusam a reconhecer, vêm confirmar as mais radicais das visões keynesianas. Isso vê‑se  já no que se refere ao conceito de ilusão nominal, central na teoria keynesiana de inflação [14]. Vê-lo-emos amanhã na teoria do comércio internacional igualmente.

É pois salutar reler hoje este seu texto publicado em 1933. Estamos perante uma tripla injunção para o abandono da Livre-Troca e para a adopção de políticas proteccionistas, em nome de argumentos económicos, políticos e morais. Economicamente, o comércio livre não é a melhor solução e comporta riscos de crises e do aumento das desigualdades que são consideráveis. A liberalização do comércio não trouxe benefícios para os países mais pobres, como o mostram os estudos mais recentes. Uma comparação dos benefícios e custos havidos, em particular em relação ao colapso das capacidades do investimento público em saúde e educação, na sequência do colapso das receitas fiscais,  sugere mesmo que o balanço é negativo.

Politicamente, a Livre-troca é perigosa. É atentatória para a democracia e para a liberdade de escolher as suas instituições sociais e económicas. Promovendo o enfraquecimento das estruturas do Estado , o que incentiva o surgimento dos fanatismos transfronteiriços  e dos comunitarismos de diversa índole. Longe de ser uma promessa de paz, o internacionalismo económico levou-nos para a guerra.

A Livre-Troca é moralmente indefensável. Não tem outras margens que não sejam a redução de toda a vida social ao espaço da mercantilização e do valor como resultado da existência da  mercadoria. Com ela estabelece-se em valor moral o que é a obscenidade social da nova “classe de lazer” globalizado [15]. Se Keynes tinha claramente percebidos os dois últimos pontos, podemos agora adicionar à sua análise o primeiro.

O futuro é, portanto, do proteccionismo. Este último impor-se-á em primeiro lugar como meio de evitar o dumping social e ecológico de certos países. Assumirá  então a forma de uma política industrial coerente onde com ele se procurará estimular o desenvolvimento de sectores com um papel estratégico num projecto de desenvolvimento mais geral. Isto levará a redefinir uma política económica global, que pode incluir a regulação dos fluxos de capitais, a fim de se recuperar os instrumentos de soberania económica, política e social. Deste ponto de vista, mesmo que seja  possível poder-se supor que a sua apresentação era de um algum modo desajeitada e a sua articulação com uma política de longo prazo ausente, a noção de patriotismo económico apresentada por Dominique de Villepin não é um absurdo.

Uma tal política envolve a definição de um quadro de referência. Hoje, tendo-se em conta as heterogeneidades económicas e sociais, a Europa dos 27 não pode ser um espaço pertinente. Este será certamente mais reduzido, talvez ainda mais estreito do que a área do Euro. As formas da política do futuro estarão ainda por definir, estão ainda por encontrar. O seu sentido geral, esse, não deixa de ser uma certeza.

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[11] Veja-se a re-edição recente em francês: F. List, Système national d’économie politique, Gallimard, col.”Tel”, Paris, 2000.

[12] P. Krugman, “Is Free Trade Passé?”, in Journal of Economic Perspectives, Vol. 1, n°2/1987, pp. 131-144.

[13] D. Vines, “John Maynard Keynes 1937-1946: The creation of International Macroeconomics” in Economic Journal, vol. 118, 2003, pp. 338-361.

[14] Voir, G.A. Akerlof et J.L. Yellen, “Can Small Deviations from rationality Make Significant Difference to Economic Equilibria ?” in American Economic Review, vol. 75, n°4/1985, pp. 708-720 e G.A. Akerlof, W.T. Dickens et G.L. Perry, “The Macroeconomics of Low Inflation” in Brookings Papers on Economic Activity, n°1/1996, pp. 1-59.

[15] Voir A. Wolfe, “Introduction” in T. Veblen, The Theory of the Leisure Class, The Modern Library, New York, 2001 (nova edição da edição de 1899).

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Para ler a primeira parte desta introdução ao texto de Keynes, elaborada por Jacques Sapir, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/06/falemos-de-economia-falemos-entao-de-politica-seleccao-e-traducao-de-julio-marques-mota/

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