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EDITORIAL – DO FASCISMO AO NEO-LIBERALISMO

A República Portuguesa e o Estado espanhol, ambos dominados durante décadas por ditaduras de matriz fascista, fizeram as respectivas transições para a democracia de formas diferentes. Diferentes, porque havia diferença nas circunstâncias que motivaram a ruptura com o autoritarismo num e noutro estado. No entanto, quase quarenta anos depois, as diferenças esbateram-se e ambos os estados vivem sob governos liderados pelos herdeiros dos antigos regimes. Por gente que, no essencial, perfilha os princípios do salazarismo e do franquismo; gente que repudia a liturgia fascista, mas que respeita o mesmo deus – o poder financeiro. Gente que chama democracia à inaudita liberdade de ofender os princípios democráticos.

Em Portugal, a guerra colonial foi um dos factores determinantes para a eclosão do movimento que depôs o regime corporativista; no Estado espanhol a própria “Revolução dos cravos” foi elemento detonador. Em ambos, a ânsia de aggiornamento  dos regimes, por parte de uma nova geração, com o beneplácito dos Estados Unidos, prevaleceu sobre a vontade das velhas ratazanas fascistas de manter tudo igual. E houve diferenças – em Portugal foi dada independência aos territórios colonizados  e aprovada uma nova constituição que erradicou formalmente todo o arrazoado fascizante. No Estado espanhol, manteve-se tudo o que se herdou do franquismo – uma ridícula monarquia, com um rei que foi um títere de Franco e o domínio sobre as nações subjugadas pelo centralismo de Madrid – o que teria sido lógico, considerando que os exércitos nacionalistas, ao invadirem o território, interromperam um regime republicano democraticamente eleito, seria ter restituído à República o governo ou, no mínimo, ter referendado o regime a adoptar.

Como dizíamos, quase quatro décadas depois, a «Revolução dos cravos» e a transição para a democracia operada por Adolfo Suárez, levam-nos a patamares idênticos. Lá como cá, chama-se democracia ao que não passa de uma estrutura de manipulação da vontade popular. Um conceito de democracia que abriga a destruição dos interesses das maiorias. Os objectivos que o fascismo perseguia atingidos «democraticamente». Uma espécie de quadratura do círculo.

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