CONTOS & CRÓNICAS – Romance trivial – por Sérgio Madeira

Boa tarde amigo Joaquim,
hoje venho com alguma pressa
A ciática vai assim assim,
mas dói-me um pouco a cabeça.
O pedido? Salada de alface
e uma sapateira prodigiosa
com uma rosa tatuada na face …
Isso servido com expressão radiosa.
E talvez pensando melhor,
traga uma sopa de espinafres,
um pão com bastante bolor
e um belo arroz de milhafres.
Um prato com gentis caracóis
cozinhados em decúbito dorsal,
sob o fogo súbito de mil sóis
e um grito longo e paranormal.
Queria ainda uma baba de camelo
e um cálice de cristal com moscatel,
um requerimento com o devido selo
e uma travessa de sarapatel.
Um lacrau com batatas a murro,
um chacal em calda de tomate
ou ainda um débil sussurro,
uma beringela e um abacate.
Não se esqueça de pedir na copa
que mandem dois pratos a mais:
vem um rapaz que fez comigo a tropa
e a minha prima que trabalha nos jornais.
Apresentei-os num baile em Cascais,
apaixonaram-se num momento
e como a moça já não tem pais
ele vem hoje pedir-ma em casamento.
Joaquim, em honra dos namorados,
traga um milhar de velas acesas.
Bem sabe, quando tenho convidados,
não costumo olhar a despesas.
É preciso ainda um jarro de tinto,
uma meloa e um queijo da ilha
(é uma angústia pesada a que sinto
quando aqui entra a patroa ou a filha).
Não se esqueça do arroz doce
e da garrafa com o bagaço de figo,
que o café que ontem me trouxe…
ó Joaquim não brinque comigo!