CONTOS & CRÓNICAS- “A morte de um cineasta” – Sérgio Madeira

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Acabo de ler no jornal a notícia discreta do falecimento de Arlindo de Souza Mateus, «bibliófilo e cineasta amador». A notícia dedica a maior parte do seu espaço a descrever a magnífica biblioteca do finado, especializada em livros sobre a sétima arte e «que compete em quantidade e em qualidade com o dos melhores fundos institucionais». Nas últimas linhas revela-se o destino do espólio: por decisão testamental de Souza Mateus, os livros e colecções de jornais e revistas, bem como o arquivo de bobinas, será doado à Cinemateca Nacional. Enquanto releio a curta informação, penso  como a designação de bibliófilo e cineasta amador desagradaria a Arlindo. Nos cartões de visita ostentava o título de realizador cinematográfico. Era assim que se considerava. Licenciado em Economia, funcionário numa repartição do Estado, todo o seu tempo livre era dedicado ao cinema. Aposentado, sem família, passava as tardes vendo filmes. Ultimamente, os canais especializados de televisão por cabo poupavam-lhe o incómodo de se deslocar às salas de exibição. Num website pessoal escrevia críticas bem fundamentadas, ainda que controversas. Vivia para o cinema.

 E a sua obra? No início dos anos sessenta do século passado, realizara uma curta-metragem sobre as velhas barbearias de Lisboa.  Obtivera o primeiro prémio na categoria a que concorreu. O júri apreciara particularmente um pormenor – como em grandes planos mostrara cadeiras metálicas com belíssimas composições florais, pura Arte Nova. Fora também mencionado no parecer com que os três  cineastas que constituíam esse júri, a subtil citação que o jovem realizador fizera, em voz off, de prosa de Lawrence Durrel quando, num dos romances do seu Quarteto de Alexandria descreve o ritual de uma barba feita num estabelecimento da cosmopolita cidade egípcia.

Conhecera-o em 1961 ou 62 quando lhe fui pedir um artigo para uma revista e ficámos amigos.    Encontrávamo-nos um grupo de gente ligada à cultura no primeiro andar do Chave d’Ouro, no Rossio. Ao fim da tarde íamos aparecendo e tentávamos arranjar mesa encostada ao varandim de onde se via o andar térreo. O Chave d’Ouro era um café lindíssimo e o cineasta, era assim que o designávamos, propusera já à gerência a realização de um filme sobre o espectacular estabelecimento. Aliás, ao longo das décadas foi concebendo projectos, esboçando guiões, estabelecendo contactos. Não consigo recordar as dezenas de projectos que foram povoando a sua mente e que descrevia com entusiasmo. A velhice não lhe reduzira a vivacidade, apenas aumentara a irritação com que repelia algum sintoma de descrença dos interlocutores. A sua única credencial, Barbearias de Lisboa Antiga, já só era referida nas suas perorações como «o filme» ou, enfaticamente, como «a minha obra».

Encontrei-o pela última vez há poucas semanas. Falou-me no seu projecto mais recente. Vindo de fora, surgiu em Portugal um negócio – transformar as cinzas de defuntos em diamantes. Diamonds are forever, era o tema musical de um filme do James Bond cantado pela Shirley Bassey e esse seria o título do filme do nosso cineasta. Uma senhora dialogaria com um anel onde brilhava o que restava do marido. Puxando à ironia, sugeri-lhe que aludisse à canção de Marilyn Monroe, Diamonds are a girl’s best friend. Levou a sério a sugestão, que anotou num pequeno caderno. Uma tosse cavernosa interrompia-lhe o discurso. Entre o sonho e a sua concretização, interpunha-se a mão fria da realidade.

Há muitos anos, numa palestra, dizia o grande e esquecido escritor Manuel Mendes que não fazia sentido que pessoas que haviam escrito na adolescência um pequeno folheto com poemas, fossem aceitescomo membros de pleno direito na associação de classe dos escritores, à época a Sociedade Portuguesa de Escritores. O autor de Pedro teria razão. Um opúsculo com versos não pode justificar uma carreira literária e talvez um documentário sobre as barbearias lisboetas não chegue para suportar o título de «realizador cinematográfico». Mas Arlindo de Souza Mateus viveu para o cinema e na sua imaginação realizou muitos filmes. Só consigo recordá-lo como «realizador».

Na verdade, só realizou sonhos. Mas será que o sonho não conta?

 

 

 

 

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