Há fotografias e documentários sobre a savana africana em que podemos ver leões e zebras bebendo água no mesmo charco. Sabendo-se que as zebras são presas apetecidas pelos grandes felídeos, tal convívio pacífico, que envolve um complexo jogo de sinais que garantem à zebra que não vai ser atacada, não pode deixar de surpreender. Estas tréguas só ocorrem em períodos de seca – o leão sabe por instinto que as zebras se não beberem água morrem – e eles acabarão por morrer de fome. Este saber que a natureza impõe a predadores e presas, seria uma boa metáfora para começar uma dissertação sobre a codícia de exploradores de mão-de-obra que muitas vezes condenam à morte contingentes de trabalhadores – ficando, por consequência, sem mão-de-obra. A ganância põe os «animais racionais» a proceder de forma irracional. Mas a imagem de leões e zebras bebendo lado a lado, faz-me lembrar um café que havia em Lisboa – o Avis – incrustado no edifício do Eden, na Praça dos Restauradores- Hoje, o Avis é uma Loja do Cidadão.
O café tinha, além de um piso térreo, ao nível da Praça, um andar onde se acedia por uma escada. Todo o café era, no interior, revestido de painéis de madeira e de espelhos. Clássico e confortável. Por que motivo o charco africano me fez lembrar o Avis? O Avis era uma savana com várias espécies – os amantes da tauromaquia que discutiam faenas. Havia também os artistas de teatro e fala-se de dois frequentadores famosos – Chaby Pinheiro e João Villaret. Reuniam ali tertúlias de sportinguistas numa época hegemonizada pelo Benfica – por isso chamavam ao Avis, o «muro das lamentações»… O símbolo do café era uma cruz de Avis em néon. Ora a cruz de Avis era o emblema da Legião Portuguesa, a estrutura para-militar fascista o que atraía legionários ao café. Toda esta diversificada fauna se arrumava no piso térreo.
No segundo piso, a história era outra.
Com poucas mesas, bem espaçadas entre si, permitia aos respectivos ocupantes uma razoável privacidade. Diz-se que numa dessas mesas, um estudante chamado Amílcar Cabral, que entre 1945 e 1950 frequentou o Instituto Superior de Agronomia, ali dava explicações de matemática, forma de ganhar uns escudos. Já na viragem da década de 50 para a de 60 paravam por ali alguns poetas do chamado grupo do Gelo, às vezes aparecendo também outros da tertúlia do Restauração. E até um ou outro neo-realista… O Avis era de facto um charco onde bebiam espécies antagónicas.
Apesar dessa diversidade faunística, não se registam incidentes de monta. Uma atitude de respeito, os legionários calavam-se à passagem de algum velho anarca ou reviralhista. Os tauromáquicos eram mais exuberantes. Chicuelinas, sortes de varas, pegas à córnea ou à barbela, eram ali discutidas com ardor.
Um fim de tarde, em direcção ao andar superior atravessou a sala um coronel passado à reserva compulsivamente por ter participado numa conspiração. Um aficionado a quem os companheiros de mesa pediram em voz baixa que moderasse, gritou exaltado:
– Pablo Picasso também é das esquerdas e não esconde a sua aficción. O coronel esboçou um sorriso.