
Falada por mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, a língua portuguesa é tão rica que, mesmo sem sairmos de Portugal, podemos fazer uma grande viagem pelas diferentes pronúncias e expressões. No Dia do Porto, apresento-vos Porto – Naçom de Falares, de Alfredo Mendes (Âncora Editora, Setembro de 2010, 2.ª edição aumentada).
Anunciada como «a mais completa recolha de calões à moda do Porto até hoje reunida em livro», a obra junta 1954 termos da Invicta. E é para eles que pretendemos saltar, assim que abrimos o livro. Mas, como nas refeições, a sobremesa fica para o fim, sem arrependimentos.
A abrir, uma dezena de histórias testemunhadas por Alfredo Mendes, dos bastidores da sua vida dedicada ao jornalismo, que revelam gente genuína, com as expressões típicas e palavras escritas como se dizem no Porto: «Sempre fui muito atiradiço. Oficialmente, casei três bezes. Isso mesmo, três bezes. As três juntei-as no mesmo cemitério donde benho de lhes botar flores. Num sei porquê, mulheres do puobo, mulheres pataqueiras, ou senhorecas da alta, metiam-se comeigo e eu, zás!, olha lá!, não me fazia rogado.» (p. 50)
Interessantes e castiças, sem dúvida, estas histórias mereciam uma advertência: se não é do Porto nem nunca lá viveu, prepare-se para o calão – e para não entender o significado de muita coisa.
Mas, por isso mesmo, lá está o glossário. O autor avisa que «deparou-se, naturalmente, com palavras comuns, algumas até regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro, algo banais no Algarve, assaz pronunciadas nas Beiras. […] Porém, é no Porto que esse vocabulário encontra melhor guarida, pelo que seria insensato, mais, seria até uma afronta à hospitalidade escorraçá-lo para outras paragens sob o pretexto de carecer de genuinidade, de não se lhe encontrar a devida certidão de nascimento.» (p. 18)
De facto, não é possível delimitar uma fronteira para a língua; definir com precisão onde começa e onde acaba o mapa de utilização de cada expressão. Eu própria, nascida no distrito do Porto e a viver em Lisboa, já encontrei palavras que fazem parte do meu vocabulário tanto na obra Língua Charra – Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro, de A. M. Pires Cabral, como no Dicionário de Falares do Alentejo, de Vítor Fernando Barros e Lourivaldo Martins Guerreiro.
Contudo, há uma certeza: no Porto tranco o cacifo com um aloquete; em Lisboa, com um cadeado. Na Invicta, delicio-me com bolinhos de bacalhau ou umas iscas; na capital, como pastéis de bacalhau, e iscas nunca são pataniscas. Posso levar uma calcadela no Porto, mas em Lisboa lerarei sempre uma pisadela. As vagens para a sopa transformam-se em feijão-verde; o fino em imperial; os magnórios em nêsperas; o pingo em garoto. E é uma delícia recordar tudo isso. Perceber que este livro encerra em si uma parte importante das raízes, da cultura e da identidade portuguesas.
Num glossário em que se destacam a língua afiada e as conotações sexuais, seria interessante haver mais informação sobre as origens das expressões. Aqui ficam algumas bem típicas:
«Vai no Batalha – falsidade, mentira, ficção. Refere-se ao nome do cinema, sito na Praça da Batalha.» (p. 132)
«Papa – Presidente do FC do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa. Carismático, polémico e contundente, o dirigente usa um timbre de voz e um ritmo discursivo que os seus apaniguados muito apreciam, equiparando-o a um Papa.» (p. 142)
«Piolho – Café Âncora d’Ouro, na Praça Parada Leitão, proximidade dos Leões. Durante a década de cinquenta foi apodado de Piolho, dada a grande afluência de estudantes e de lentes (professores).» (p. 142)
————————
