A sombra de Rosalía, por Séchu Sende

Sempre Galiza!

Sempre Galiza!

 

 

Dia 24 de fevereiro é o dia de Rosalia de Castro; este ano é o 175º aniversário do seu nascimento. Leiam Rosalia, que faz bem à alma.

 

A sombra de Rosalía

 

   por Séchu Sende

 

“Os países sem lendas estám condeados a morrer de frio”

 

Patrice de la Tour du Pin

 

“Sombra de Axular, volverás á terra (…) onde permanecerás até o fim dos séculos”

 

Marc Légasse

 

 

 

Di-se que quando morreu

a poeta Rosalia

a sua sombra separou-se 

dela e desde aquel dia

vive entre nós como

umha sombra que tem vida.

 

Rosalia dixo-lhe á sombra

antes de fechar os olhos

para sempre, sonhando

o último dos seus sonhos:

– Vai, protege a nossa língua, 

o idioma do meu povo.

 

Vai de aldeia em aldeia,

vai, vai de vila em vila, 

de cidade em cidade,

sombra da minha vida,

defende dos inimigos

a vida da nossa língua.

 

Vai, minha sombrinha, vai,

da-lhe força á minha gente

para construír o idioma

cooperativamente,

com palavras insubmisas

como as dumha mulher valente.

 

E dixo-lhe Rosalia

á própria sombra dela

– Volve-te raíz, minha sombra,

caminha com os pés na terra

e entra nos sonhos do povo

para que sonhe com as estrelas.

 

E o dezaseis de julho

Rosalia foi para a tumba,

que em paz descanse, 

e a sombra de sombra pura

ao pé dum arco da velha

começou a aventura.

 

Começou a sua viagem.

no cemitério de Adina,

na ribeirinha do Sar,

a sombra de Rosalia

e despois de tantos anos

segue entre nós aínda.

 

Desde aquela viaja 

pola Galiza enteira.

Dizem que a sombra arrecende

a rosas, a laranxeiras,

a regatos e a fontes, 

a terra, sol e figueiras.

 

Se nom a viches aínda

e a queres conhecer

sempre podes intenta-lo: 

fecha os olhos para a ver.

É como qualquer sombra

e tem forma de mulher.

 

Tem umha saia de sombra

a sombra de Rosalia,

zapatos de escuridade

umha blusa ensombrecida

de todas as cores da sombra

na sombra da luz do dia.

 

A sombra de Rosalia

joga com as sombras das pombas

e sobre a sombra das nuves

a sombra ás vezes voa.

E quando chove leva

um paráguas de sombra.

 

Gosta da festa rachada,

das verbenas e os seráns,

dos festivais e concertos,

e dizem que a virom bailar

com o cantante de Zënzar

um agarrado e um vals.

 

A sombra de Rosalia

quando canta é feliz,

e dizem que, quando dormem,

canta-lhes cancións infantis

cheias de cores aos nenos

e nenas do nosso país.

 

Gosta de achegar-se aos berces

das crianças que estám a chorar

e recita-lhes poemas

que ninguém mais pode escoitar,

para aprenderem palavras

que nunca mais esquecerám

 

E desde aquela a sombra vai

viajando de sonho em sonho

das crianças que sempre falam

a língua do nosso povo

contando-lhes trabalínguas

lendas, cançons e contos.

 

A sombra de Rosalia

tamém entra nos sonhos

dos nenos que nom falam 

galego ou o falam pouco.

E assi na almofada deixa

palavras como tesouros

 

para todos os nenos e nenas

que vivem no país nosso

escritas em papeis de cores:

estrela, ninho, abesouro,

bágoa, eu, papaventos,

vacaloura, mol e tojo.

 

A sombra de Rosalia,

nos teus sonhos, quando dormes,

di-che os nomes dos paxaros,

das árvores e das flores,

dos animais e da chuva,

das emoçons e das cores.

 

Sempre agasalha palavras

a sombra de Rosalia

lengalengas, poesias

cantareas, adivinhas,

cançons da nossa naçom,

livros na nossa língua.

 

E a sombra de Rosalia

entra nos sonhos dos pais

e das mais que falam pouco

galego aos filhos e vai

e di-lhes no ouvido:

– Tedes que falar-lho mais.

 

Aos pais que nom lhes aprendem

a língua aos nenos e ás nenas

a sombra de Rosalia 

tira-lhes das orelhas.

Os galegos e galegas

falamos a língua da terra.

 

Ás vezes pode-se ver

a sombra de Rosalia

em qualquer momento

na rua, á luz do dia,

quando vas mercar pam

ou numha frutaria.

 

A sombra de Rosalia

hoje estivo com Inés

umha rapaza de Vigo

que vive no bairro de Teis

e hoje botou se a falar

galego por primeira vez.

 

A sombra da poeta di:

-A lingua é o meu fogar,

vivo nas vossas palavras

e vivo no vosso falar,

cada palabra é umha casa

que devemos cuidar.

 

Para mudar o futuro

fala-lhes galego sempre

aos nenos e nenas porque

o porvir depende deles

nom podes mudar o porvir

se nom cámbias o presente.

 

E os que nom falades aínda

a que estades esperando?

Caminhar é umha ventura

e o caminho fai-se andando

e a língua da Galiza

defendemo-la falando.

 

Falar é mui importante,

muito mais do que parece,

as palavras da Galiza

a Galiza enriquecem.

Se tu nom falas galego

o país se empobrece.

 

Há milheiros de persoas

a falar galego a diário,

homes, mulheres, nenos

que na rua, no trabalho

falamos como somos

e somos como falamos.

 

Escrevemos em galego

os nossos coraçons de amor,

falamo-lo no caminho

e nunca estamos sós,

porque a língua nos une e

da mao caminhamos melhor.

 

A sombra de Rosalia

é como foi Rosalia,

umha mulher rebelde

e luitadora que cria

que as palavras traem ao mundo

liberdade e justiça.

 

A sombra de Rosalia

em nós palavras acende

como estrelas na noite

ou faíscas que o lume prendem

e, como a nossa língua,

estará com nós por sempre.

 

Estará contigo sempre

a sombra de Rosalia

e irá contigo da mao

no caminho da tua vida

acompanhando os teus sonhos.

Viva o idioma!, viva a língua!

 

 

 

Compostela | 27/01/2012

 

 

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