II
Quando 1922, cumprida a sua missão sobre a Terra, regressar à oficina onde o Tempo fabrica os séculos, antes que o velho marido da Eternidade o mande recolher ao armazém onde se guardam os anos em segunda mão, não deixará de apresentar o seu relatório e travar-se-á, pouco mais ou menos, o seguinte diálogo:
O Tempo – Então que tal te passaram em Portugal?
1922 – Como de costume. Uns a fazerem asneiras, outros a fazerem horas e o resto a não fazer nada.
O Tempo – Então os portugueses não te aproveitaram para ver se endireitavam aquela barcaça desarvorada?
1922 – É que os almirantes e os pilotos são mais que as mães e, quando algum deita a mão ao pau de leme, é sempre para dar as suas cacetadas nos parceiros.
O Tempo – Mas não fizeram nada de novo?
1922 – Fizeram. Uma coisa admirável. Foram ao Brasil pelo ar.
O Tempo – E então? Para um ano já chega…
1922 – Pois sim, mas há quem diga que o conseguiram por irem só dois e naquelas alturas não poderem falar um com outro. Se lá voltam meia dúzia e num aparelho maior em que possam discutir, não passam do cabo Espichel.
O Tempo – Mas que diabo! Olha que dois já chegam para uma teima e não andavam sempre no ar.
1922 – Mas é que um deles, em se apanhando em terra, fecha-se em copas e ninguém lhe arranca uma palavra.
O Tempo – Diz-me dessas! E as finanças?
1922 – Mázinhas, benza-as Deus; mas eles conformados: A quem lhes fala no preço da libra e do dólar, respondem que, em compensação, o escudo está baratíssimo a ponto de por um florim se poder comprar uma dúzia deles e o cambista até dar treze quando está de bom humor.
O Tempo – Afinal aproveitaram-te para acabar as obras do Rossio…
1922 – ´É verdade. Custou; mas fazendo serões de dia lá deram cabo de tudo. Agora falta só concluir os passeios, calcetar o meio da rua, semear os candeeiros, espetar as árvores e tornar a fazer tudo de novo, porque toda a gente é de opinião que, se os carros passassem rentes aos prédios, era mais fácil tomá-los de dentro das lojas, dado o preço a que este inverno chegaram certos aparelhos anti-diluvianos chamados guarda-chuvas.
O Tempo – Tudo então caríssimo?
1922 – Nem por isso. Tira-se facilmente um “fauteuil” para o Zacconi nos contratadores por trinta e cinco escudos. As pescadas é que estão um pouco mais caras. Não tem havido batata; mas os touros felizmente não faltaram.
O Tempo – E como vão eles de política?
1922 – Bem. Como o ano passado, como o ano que vem, como sempre. Fazem a sua revoluçãozinha quando calha; mas nem por isso deixam de ser amigos. No fundo, aquilo é uma família; uma família que se dá pessimamente, mas uma família…
O Tempo – Mas enfim, aparte essa proeza formidável dos aviadores, não se passou em ti caso nenhum notável? Não notaste um progresso, uma tentativa, uma aspiração, qualquer gesto ou qualquer intenção que represente alguma coisa?
1922 – Tenho muita pena, senhor Tempo, de o terem perdido assim; mas não dei por nada. Muito dinheiro esbanjado e mal gasto, muita tolice e muita mexeriquice, excelentes ocasiões de estarem calados e quietos completamente perdidas e assim passaram trezentos e sessenta e cinco dias…
… E o velho Tempo das barbaças e da ampulheta, despedindo o 1922 inútil, acabará por dizer aos atacadores da sua túnica:
– E mandei eu para lá o 1923! São capazes de o gastarem na mesma.
31 de Dezembro de 1922


