
V
― Que lhe parece, meu caro inspector? indagava o reitor.
― Não me parece mal, concordava este. E algum destes alunos mais adiantados será capaz de me explicar a lei do inquilinato?
― Isso é do programa do terceiro ano da Politécnica, curso especial.
Na aula de geografia o professor tinha ensinado aos alunos que o Oceano Pacífico era um estreito que separava a Escócia da Checoslováquia. Na de botânica houve um miúdo que declarou que o cedro era um arbusto da família das Salcídeas, como o coentro e a segurelha. Na de química, o professor explicara que o ácido sulfúrico misturado com o bacalhau à Gomes de Sá dava um precipitado cor de rosa muito empregado em loções para o cabelo.
O inspector, que antes do movimento de 32 de Setembro era olheiro das obras de Santa Engrácia, concordava com tudo. Só onde ele repontou foi na aula de matemática.
Aí chamaram à pedra um rapazinho que dá as melhores esperanças.
O professor anunciou:
― Vamos decompor um número primo em factores comuns. Escreva lá: 12 igual a…
O miúdo pegou no giz, escreveu 12 e, depois de reflectir um pouco, concluiu a igualdade:
12 – 30 + …
Isso também nós queríamos, exclamou o inspector, dando um pulo na cadeira. Outro menino, que este faz contas como um ministro das Finanças…
FIM
In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.
