A REVOLTA DOS FUNCIONÁRIOS, por André Brun

(1881 – 1926)
(1881 – 1926)

V

― Que lhe parece, meu caro inspector? indagava o reitor.

― Não me parece mal, concordava este. E algum destes alunos mais adiantados será capaz de me explicar a lei do inquilinato?

― Isso é do programa do terceiro ano da Politécnica, curso especial.

Na aula de geografia o professor tinha ensinado aos alunos que o Oceano Pacífico era um estreito que separava a Escócia da Checoslováquia. Na de botânica houve um miúdo que declarou que o cedro era um arbusto da família das Salcídeas, como o coentro e a segurelha. Na de química, o professor explicara que o ácido sulfúrico misturado com o bacalhau à Gomes de Sá dava um precipitado cor de rosa muito empregado em loções para o cabelo.

O inspector, que antes do movimento de 32 de Setembro era olheiro das obras de Santa Engrácia, concordava com tudo. Só onde ele repontou foi na aula de matemática.

Aí chamaram à pedra um rapazinho que dá as melhores esperanças.

O professor anunciou:

― Vamos decompor um número primo em factores comuns. Escreva lá: 12 igual a…

O miúdo pegou no giz, escreveu 12 e, depois de reflectir um pouco, concluiu a igualdade:

12 – 30 + …

Isso também nós queríamos, exclamou o inspector, dando um pulo na cadeira. Outro menino, que este faz contas como um ministro das Finanças…

FIM

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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