Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Numa conversa divulgada e datada de 26 de Fevereiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Urmas Paet, fala da situação ucraniana com o Alto Representante da União Europeia para a Política Externa, Catherine Ashton .
O registo, cuja autenticidade foi confirmada por Urmas Paet, está disponível abaixo [o vídeo começa aos 1.54,]. De acordo com a pessoa que o colocou em linha, a conversação teria sido registada por agentes do serviço de segurança ucraniano (SBU) que permaneciam fiéis a Ianoukovitch. O vídeo foi posto em linha hoje e é analisado por Russia Today (cuja interpretação do registo é sujeita à discussão).
Uma transcrição um pouco mais completa (em inglês) está disponível neste endereço: http://news.postimees.ee/2719318/ashton-paet-phone-call-leaked-to-youtube
.Entre os pontos-chave:
- Ashton interroga Paet sobre as suas impressões após a sua visita em Ucrânia. Este anuncia ter encontrado representantes do Partido das Regiões, opositores e Olga Bogomolets (que provar-se-á ser uma mulher política implicada nos serviços médicos e pressentida como querendo entrar para o governo).
- As suas impressões são de que não há “nenhuma confiança” nos políticos que formam doravante a coligação. As pessoas sobre Maïdan sublinham “o passado sujo” (dirty past) da maior parte dos políticos que estão no governo.
- Fala seguidamente de Olga Bogomolets, que se sentia a querer entrar para o governo, mas que não foi considerada porque exigia levar a sua equipa e os peritos estrangeiros para colocarem em acção muito rapidamente diversas reformas [nada se fez e é um outro “activista” de Maidan que se encontra como ministro da saúde : ver a composição do governo]
- O nível de confiança aqui é muitíssimo baixo” e há igualmente problemas de segurança. Os membros do Partido das Regiões que encontrei estão perturbados. Aceitam que haja este novo governo e eleições, mas há “uma pressão enorme” sobre os deputados. Jornalistas viram um membro do Parlamento ser espancado à entrada do Parlamento, viram as armas nas ruas.
- “Toda esta desordem continua (all this mess) as pessoas não se moverão antes de ver as verdadeiras reformas. Eis o seu sentimento geral.
- Em seguida, do seu ponto de vista, evoca a necessidade de um sinal forte sobre o apoio financeiro ao nível europeu para aumentar o nível de confiança, “um novo governo não é suficiente”. É necessário aumentar o nível de confiança ou “aquilo terminará mal”.
- O ministro manifesta a sua apreensão relativa ao facto que os ucranianos do leste se venham a levantar e que fortes perturbações possam rebentar e ainda que eles reclamem que a Rússia “retome o controlo” (o que se verificou na Crimeia).
“Party of Regions’ representatives also said that you will soon see people riot in Eastern Ukraine and start demanding their rights. Some of the people that were with me had been in Donetsk and they said the people there cannot wait how long the Ukrainian occupation in Donetsk will last. That, actually, Donetsk is a Russian city and would like to see Russia to take over the city”. - Ashton conclui com “um muito interessante” antes de avançar sobre uma reunião que teve na véspera com Oli Rehn sobre a possibilidade de um apoio financeiro (principalmente a médio prazo ), sobre um apoio financeiro e aos homens de negócios (dirigentes empresariais, etc.…). Sobre o plano político, ela propõe pôr em contacto a sociedade civil ucraniana e os líderes políticos com pessoas “que sabem pôr em prática reformas políticas e económicas”. Ela visa os países próximos da Ucrânia que já estão a efectuar tais reformas. Ela sublinha depois a forte “ experiência” relativa às reformas políticas que a União Europeia já dispõe. Esta retoma depois o que já tinha dito à Maïdan, ou seja “Sim, vocês querem reformas políticas, mas devem pensar primeiro no curto prazo” (porem em acção medidas anticorrupção, levar as pessoas em que se tem confiança a assumirem as responsabilidades até às eleições [está-se longe]). Disse igualmente, que havia necessidade de parceiros legítimos para fornecerem o dinheiro. Disse aos responsáveis políticos que se continuassem a mostrar à Maïdan para estabelecer uma relação de confiança e de tranquilidade. Esta aconselhou ainda os deputados do Partido das Regiões para se irem mostrar onde as pessoas tinham sido mortas, para compreenderem bem o que se tinha passado, para assumirem o seu papel na cólera que se tinha criado contra a maneira como Ianoukovitch governava (não sei se o fizeram mas é muito arriscado neste momento ).
- Com efeito, o único político que os membros da sociedade civil mencionaram positivamente era [Petro] Porochenko. Referindo-se depois, Maidan dá-lhe pouca confiança”.
- Seguidamente, sublinha que o que é perturbante, e o que lhe conta Olga, é que tudo indica que os gensqui foram mortos por atiradores emboscados sobre os dois lados, os polícias e as pessoas da rua, foram mortos pelos mesmos atiradores de elite que matavam dos dois lados. Mostrou-me algumas fotografias, encontrou médicos com quem falou , [os relatórios] mostram que foi a mesma “handwriting” (na acepção de maneira de fazer), foi com o mesmo tipo de balas, e agora é realmente inquietante que a nova coligação não deseje inquirir sobre que se passou exactamente. Há pois actualmente uma compreensão (understanding) cada vez mais forte de que por detrás dos atiradores de elite, não havia Ianoukovitch, mas sim que eram gentes ligadas à nova coligação”. [ Comentário: A mínima, pode-se entender “understanding” como um acordo tácito ou como uma ideia cada vez mais segura de que os atiradores de elite seriam snipers de Ianoukovitch// Se nous posicionarmos numa leitura literal pode-se ver uma confissão do facto que os mesmos snipers visavam os manifestantes e os polícias e que eram fiéis à nova coligação]
- Ashton considera então: “nós deveríamos inquirir, não tinha captado isso, oh, meu Deus” (de um tom muito igual)
- «Isto desacredita já a nova coligação ” acrescenta Paet. Ashton apela seguidamente à prudência, sublinha que é necessário que aquilo funcione minimamente para evitar o caos. Que haverá um compromisso nas próximas semanas e que depois virão as eleições. (mais ou menos assim).
- Estes referem-se depois aos seus próximos RDV e Paet deseja boa viagem à Austrália à Ashton.
Compreender-se-á que do ponto de vista de Ashton o importante é terminar as coisas rapidamente de modo que o governo disponha de uma confiança suficientemente importante para poder pôr em lugar as reformas. Do ponto de vista de Paet, há uma consciência de uma possível intervenção da Rússia (que não era por conseguinte de forma alguma nenhuma surpresa). Os relatórios sobre os snipers deixam pouco lugar à interpretação e devem claramente conduzir à uma releitura parcial dos acontecimentos em Ucrânia.
Texto publicado por Kiergaard, sob o título (Compte-Rendu) Conversation fuitée entre Ashton et le MAE estonien sur l’Ukraine, em 5 Março de 2014. Texto disponível em:
