Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Christophe Beaudouin: A França talvez ainda não esteja consciente de que pode morrer*
Uma entrevista publicada por Nouvelles de France, Outubro de 2013
PARTE II
(continuação)
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Como explicam esta mudança?
Esta mudança da ordem antiga conheceu uma aceleração sob o efeito duma conjunção: a lembrança culpada e horrorizada das guerras bem como das ideologias e dos valores que lhes serviram de justificação, o orgulho prometaico que cresce à medida da dominação humana sobre o universo pela via da técnica, da indústria e das ciências, a revolução cultural individualista, a sociedade da urbanização, do consumo e da interconexão, e a mundialização feita ou conseguida com a livre-troca. As sociedades europeias têm-se, portanto, convertido rapidamente aos valores da modernidade: o pluralismo, a tolerância, o nomadismo e a abertura. Traduziram juridicamente estes valores em tratados e políticas europeias através de dois princípios de utilização múltipla: a livre circulação e a não discriminação. “A sociedade democrática” europeia, composta de indivíduos “libertos” das antigas mediações e instituições – o Estado e por extensão a escola, o exército…, para lá da nação, a família, as morais laicas e religiosas – têm, assim, gradualmente adaptado o seu regime político aos seus novos valores. “O Estado democrático”, fundado sobre a soberania do povo, deve deixar progressivamente o lugar “à sociedade democrática”, fundada sobre a soberania do indivíduo, beneficiário de múltiplos direitos subjectivos. A mudança dos Estados-nações por entidades administrativas transnacionais – quase 2.000 organizações de nível mundial – é o início de realização desta “democracia sem povo”, ou “postdemocracia” da qual a Europa é o laboratório experimental.
O que pensar da tese de François Asselineau que afirma (e parece provar) que a UE foi uma criação desejada pelos Estados Unidos?
Sabe, em mais de vinte séculos, a unificação da Europa foi desejada por muita gente, gente recomendável ou não (sorrisos). As tentativas imperiais, raramente felizes, dominam toda a história europeia. Voltemos ao excelente livro de John Laughland “A liberdade das nações” sobre as múltiplas inspirações “da ideia” europeia. Tratando-se da contribuição americana para esta unificação, esta não é com efeito negligenciável. Mas não há por aí nada de verdadeiramente novo. Os documentos desclassificados, publicados e explorados pelos historiadores desde há muito tempo, efectivamente, confirmaram como, em plena guerra fria, a CIA regou com milhões de dólares os movimentos europeístas, a fim de os opor à União soviética. Washington nunca dissimulou de resto a sua estratégia para a Europa unida e pode apoiar-se, em França, sobre Jean Monnet, Giscard e outros Cohn-Bendit’s. Vale mais evidentemente para os Estados Unidos ter um só interlocutor, em Bruxelas, que vinte e oito ou trinta nações diferentes. Desde o AMGOT (“governo militar combinado dos territórios ocupados” e já a sua moeda) que de Gaulle fez retardar a CECA, o projeto CED, Maastricht, Lisboa etc. os Estados Unidos incentivaram abertamente a integração europeia, mas também os alargamentos, de resto até à Turquia cuja adesão apoiam expressamente. Realmente, na Europa há apenas a França que possa realmente ser contrariada pelo hegemonismo americano. Quem mais, basicamente, entre os nossos parceiros europeus, pode querer uma Europa europeia e um mundo multipolar? A Alemanha é uma potência continental, os países do Sul estão virados para o Mar Mediterrâneo, os da Europa central e oriental precipitaram-se com entusiasmo sob o guarda-chuva Atlântico. Resumidamente, há apenas a França, com a sua geografia excepcional de cinco fachadas, mais um sexta no ultramar, que a natureza dotou de uma vocação mundial. Toda a nossa História é disso uma testemunha. A Europa é demasiado pequena para ela. Mas as suas elites têm tão pouca ambição para a França, que se fecharam numa duplo processo de amputação de soberania – em nome da paz! – antes de o abandonarem, finalmente, desarmadas e de mãos atadas, às oligarquias financeiras, militares, industriais e petrolíferas que controlam hoje a mundialização.
Também insiste na questão da responsabilidade, uma palavra de quasi-grande importância em 2013… (oligarquia mas também rejeição de responsabilidade como um meio de privar as pessoas de liberdades)?
Sim, nem sempre compreendi como se podia dizer-se “liberal” – quer se trate da economia, do poder ou dos indivíduos – sem estar a pensar na responsabilidade que no entanto lhe é inseparável. A liberdade sem a responsabilidade, isto não é mais do que a selvajaria. No campo político, como num outro campo qualquer, já ninguém é responsável de nada. Os governos europeus são formalmente responsáveis cada um deles em face ao seu Parlamento, mas já não têm a autoridade – uma vez que eles já não exercem mais a soberania monetária, orçamental nem sequer 80% da soberania legislativa – enquanto os poderes supranacionais, eles, detêm a autoridade, mas não são responsáveis face a nenhum dos povos. Porquê esta irresponsabilidade política que é, no entanto, uma condição do Estado de direito? Muito simplesmente, porque a União não é geneticamente um soberano político, porque ela não é “um governo” no sentido de Estado e, de resto, felizmente que assim é! Os seus órgãos motores – a Comissão, o Tribunal de Justiça e o Banco Central – constituem autoridades juridica e politicamente independentes, colocando simples e plenamente em prática os tratados negociados e ratificados pelos Estados, visando à unificação jurídica e comercial. Esvaziando do seu conteúdo a soberania, privou-se o cidadão dos seus direitos políticos: o seu voto não é mais pesado que o bocado de papel que coloca nas urnas. Sim, esta é a amputação da primeira das suas liberdades, a liberdade de colectivamente escolher o seu destino. A única escolha que lhe é deixada é para votar a ‘nova estrela’ e de mudar os pesos leves [ do sistema] . Assumindo um pouco mais de seriedade na análise, vê-se bem que essa dissolução progressiva da responsabilidade na esfera da Cidade não é mais do que a tendência pública que se tem estado a generalizar na esfera privada, com o declínio da responsabilidade individual e do mérito, em benefício da explosão dos direitos subjectivos individuais e minoritários.
“A integração supranacional é a viagem final de democracias cansadas, quase aliviadas de estarem a acabar, sem má consciência, face às responsabilidades decididamente exigentes da soberania”
Distingue “a Europa de antes” dos anos 90 – ou seja antes do Acto único, de Maastricht e de Schengen – então feita de cooperações entre nações mais ou menos soberanas, de fronteiras “intactas” e com o mercado comum protegido por uma pauta aduaneira, de “uma Europa de depois ”, onde as soberanias, as fronteiras e a preferência comunitária foram desmanteladas. No que é que vê aqui um abandono das elites?
Com efeito, a passagem da Europa das nações à Europa da integração, do Mercado comum à globalização mercantil é a assinatura de uma grande renúncia. Uma renúncia à Europa como vontade e como civilização. Uma renúncia à democracia compreendida como a soberania colectiva e mais geralmente como “o governo dos Homens”. Esta renúncia egoísta das novas elites – aquelas que controlam os fluxos de dinheiro e de informação mundiais – conhece grandes precedentes históricos: no século IV, a decadência do espírito público que atingiu a classe dirigente romana provocou a desordem que está na origem da implosão de Roma assim oferecida aos invasores; do mesmo modo, o desmoronamento moral das elites francesas preparou o desmoronamento militar e “a estranha derrota” de Maio-Junho de 1940 de acordo com a famosa fórmula de Marc Bloch. Mas como justificar ainda os seus privilégios se as elites viram assim as costas ao Bem comum? Chateaubriand via nesta traição das elites uma espécie de fatalidade: “Uma classe dirigente conhece três idades sucessivas: a idade das superioridades, a idade dos privilégios, a idade das vaidades: a saída do primeira, degenera na segunda e apaga-se na última.” Assim, no dia seguinte ao da queda do muro de Berlim em 1989, os dirigentes das democracias do Ocidente europeu, onde o individualismo egoísta minava outra vez o espírito público, foram tomadas de pânico em face das responsabilidades novas de que as suas democracias herdavam enquanto nações soberanas, num mundo finalmente livre. Ao contrário do sentido desta libertação histórica que teria devido encher de alegria todo o continente e o mundo inteiro, dispararam numa correria para uma concepção de fusão da Europa, de resto, velha dos anos 50. Sentindo o vazio a corroer a nação a partir de dentro, a elite francesa deixou de imaginar, desde há muito tempo, um destino próprio para a nação. Em vez de pensar sobre uma arquitectura europeia flexível que conjugue respeito das democracias, da necessidade de fronteiras e economia de mercado, os Estados da Europa colaram-se os uns aos outro sob a égide da administração de Bruxelas, como galinhas doentes a um canto do galinheiro. Já não era nem a paz nem a fraternidade europeia que os movia desta vez, mas a angústia de um mundo que estava em grande mudança. A integração supranacional é a última viagem das democracias cansadas, exaustas e quase que aliviadas por sentirem estar a chegar o seu fim, sem nenhum problema de consciência, face às responsabilidades decididamente exigentes da soberania.
(continua)
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*Fonte: o texto está disponível no site : http://www.ndf.fr/poing-de-vue/11-12-2013/christophe-beaudouin-france-nest-etre-pas-encore-bien-consciente-quelle-mourir-13
Foi depois retomado por muitos outros sites entre os quais o Observatoire de l’Europe onde lhe foi dado o título:
A União tornou-se numa empresa de liquidação da Europa como civilização e como projecto
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Para ler a Parte I desta entrevista a Christophe Beaudouin, publicada ontem em AViagem dos Argonautas, vá a:
A FRANÇA TALVEZ AINDA NÃO ESTEJA CONSCIENTE DE QUE PODE MORRER, por CHRISTOPHE BEAUDOUIN

