A FRANÇA TALVEZ AINDA NÃO ESTEJA CONSCIENTE DE QUE PODE MORRER, por CHRISTOPHE BEAUDOUIN

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Christophe Beaudouin: A França talvez ainda não esteja consciente de que pode morrer*

Uma entrevista publicada por Nouvelles de France, Outubro de 2013

PARTE IV
(CONCLUSÃO)

Como explicar a incapacidade “dos soberanistas” em bloquear a construção da UE enquanto que os eleitores são cada vez mais cépticos, assim como o mostrou o referendo facilmente ganho dos “anti” em 2005? (divisões, egos, líderes, interferência dos conceitos sempre vivos direita/esquerda, etc.)

Esta “não” vinda das profundidades da maioria silenciosa não teve como efeito senão retardar a entrada em vigor do tratado, depois de ementas que nada mais foram que mudanças cosméticas. Mas a intoxicação massiva retomou, sob a autoridade espiritual das elites mediáticas e políticas à qual não é fácil resistir. Trata-se de uma ideologia, quase religiosa, repito-o. O processo europeu “de união cada vez mais intensa ” inscreve-se ele mesmo no processo de unificação jurídica e mercantil do mundo, ou seja “o Progresso” sob a égide da livre-troca e dos direitos do homem globalizados. Mas isto não é nada! Desde então, os que emitem no mínimo reservas em relação a este processo, justificado pelo ideal kantiano de paz perpétua pelo “pelo comércio doce”, não são somente percebidos como “adversários” políticas a combater democraticamente, mas como “inimigos do Bem”. A sua própria palavra é julgada inadmissível e a sua presença nos hemiciclos e nos programas de televisão é julgada “perigosa”.

Hoje,  o edifício parece em vias de vir abaixo e  a propósito dos factos, cada um de nós percebe sem dificuldade que a crise monetária, económica, social e de identidade europeia tem algo a ver com a arquitectura e a política actual da Europa. Se a mensagem a que se chama de “soberanista” quer ser entendida e seguida, deve alargar-se e encarnar-se. Primeiramente alargar-se. É necessário agora abertamente inscrever-se num combate pela civilização europeia, isto é, contra tudo o que a está a minar e que se pode  agrupar sob o termo “desenraízamento”. Está-se a minar uma a uma as condições não somente políticas mas também morais, culturais, e antropológicas de um mundo “decente” na acepção de “common decency” de Orwell. Não se trata, e possivelmente nunca mais, apenas de um combate para entregar ao povo a sua soberania, face a um qualquer mercador todo-poderoso , mas também de combater por um programa para o re-enraizamento do mundo. Tudo o resto é irrisório. É necessário propostas que visem a que se alcance o re-enraizamento das pessoas, dos povos, do poder, da economia, da finança, dos homens, enfim. Aqui está na verdade o verdadeiro combate pela paz. É necessário reler Simone Weil urgentemente, a grande, sobre o enraizamento como “necessidade vital da alma humana”.

Os europeistas chamam “ Europa” ao que hoje não é mais do que uma acumulação de normas e injunções, fria construção de vidro e de aço, sem portas, sem teto e sem memórias. É o humanismo e os valores fundadoras da civilização europeia que é necessário contrapor a esta doce barbárie tecnocrática, mercantil, e contra os seus empregados políticos. Mas o que é a civilização europeia? Paul Valéry resumia: “Chamo Europa a uma terra que foi romanizada, cristianizada e submetida ao espírito de disciplina dos Gregos”. Por aqui,  tudo  está dito.

É pois necessário encontrar agora o homem de carácter – e esta é a segunda condição – que encarne naturalmente este combate, pelo seu andamento, pelas suas realizações e,  pela profundidade dos seus sentimentos, deve gostar da França mais que de si-próprio e ser indiferente às vaidades da política. A França talvez não esteja ainda bem consciente que está a morrer. É em circunstâncias excepcionais que é necessário fazer apelo a homens excepcionais. Ela terá esgotado desde muito cedo os homens “políticos normais”. O momento aproxima-se em que deverá decidir-se a ter que ir extirpar o pássaro raro que se esconde debaixo da sua cama, onde está escondido.

Christophe Beaudouin: «La France n’est peut-être pas encore bien consciente qu’elle peut mourir »

Declarações recolhidas por  Eric Martin. 

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Para ler a Parte III desta entrevista a Christophe Beaudouin, publicada ontem em AViagem dos Argonautas, vá a:

A FRANÇA TALVEZ AINDA NÃO ESTEJA CONSCIENTE DE QUE PODE MORRER, por CHRISTOPHE BEAUDOUIN

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