CONTOS & CRÓNICAS – “IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986.” – 5 – por José Brandão
carlosloures
Os áridos planaltos para lá do Mississípi deixaram de constituir barreira à colonização dos novos territórios. Vagas de imigrantes avançam para Oeste, frequentemente encorajados pelas descobertas de ouro e de prata que excitavam as cobiças até dos mais temerosos.
Eram tempos de grande bulício, em que o revólver impunha o seu domínio. A criminalidade acompanhava a expansão dos colonos americanos, assolando o Centro e principalmente o Oeste, para onde afluíam antigos combatentes das guerras civis, que procuravam trabalho, embora sem grande desejo de o encontrar. A Pradaria, as Rochosas e outras regiões do vasto Oeste americano transformam-se em territórios onde o único código em vigor é o da selva, em que só pontifica o respeito imposto pelo revólver de cano longo. Calcula-se em cerca de 20 000 o número dos que, entre 1875 e 1895, caíram na sequência das brigas estúpidas e sórdidas que por todo o Oeste americano constituíam o «pão nosso de cada dia». «O único juiz nestas paragens é o meu colt de seis tiros. A única pena prevista pela lei é a pena de morte», afirmava o famoso «coronel» Drake, descobridor de petróleo da Pensilvânia.
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São, porém, os índios quem mais sofrerá com a expansão territorial americana. As Grandes Planícies, que eram há muito tempo domínio dos índios e dos bisontes, passaram a terras de trigo. À matança dos bisontes – em que fica célebre o famoso Cody, mais conhecido pelo seu nome de circo, Buffalo Bill – seguem-se os massacres das tribos índias, que acabam dizimadas como os bisontes. Cody distingue-se em ambas as caçadas: em dezassete meses matou à sua conta 4280 bisontes e, em menos tempo, abateu os chefes sioux Tall Buli («Grande Touro») e Yellow Hand («Mão Amarela»).
Privados dos seus terrenos de caça, os índios combatiam desesperadamente o invasor. Teriam a mesma sorte dos bisontes. No fundo, tratava-se de uma colonização, com uma iníqua originalidade – a espoliação.
O obstáculo humano constituído pela população indígena ameríndia seria ultrapassado pela via da expropriação brutal e do morticínio em massa dos autóctones. Por volta de 1838, a maior parte do que restava dos índios de leste foi empurrada para o último território índio em Oklahoma, que mais tarde será também vítima da cobiça territorial dos colonos brancos.
Para possibilitar a expansão branca, era preciso primeiro “tratar da saúde” aos índios, primeiros habitantes do continente. Sempre sem piedade: começaram o massacre. Em seguida, dado que resistiam heroicamente, fizeram de contas que se entendiam com eles. Sugeriram que fossem viver para os territórios situados mais a Oeste. Asseguravam-lhes estes domínios «enquanto a erva crescer e a água correr»: tais foram os termos empregues geralmente. Mas depressa as terras reservadas para os «selvagens» foram por seu lado cobiçadas: recomeçaram os massacres.
«Nas relações de uma nação civilizada com selvagens a questão da dignidade nacional não se coloca: com eles, procede-se como se fossem animais selvagens; a escolha entre o combate, a persuasão ou a retirada apenas depende do que se afigure mais fácil e seguro.» Esta declaração do general F. Walker, que se cobriu de glória dizimando os apaches, tem pelo menos o mérito de ser franca.
Em 1863, o chefe apache Mangus dirigiu-se para o Forte Mac Lane para assinar um tratado de paz com o coronel West. Quando se aproxima, um soldado espeta-o pelas costas com a ponta de uma baioneta em brasa, como o seu chefe lhe tinha mandado. Mangus, que tinha mais de setenta anos, deu um salto: era rebelião manifesta. Enchem-no de balas. Poderiam contar-se aos milhares historietas como esta, e ainda mais horríveis. Os tratados jamais foram respeitados pelos brancos apesar da boa vontade por vezes demonstrada pelo governo federal. Os chefes do exército apenas pensavam em aumentar a lista das suas façanhas dominando em rios de sangue revoltas por vezes provocadas por eles próprios.
No princípio do século o problema dos «peles-vermelhas» estava portanto arrumado: pelo vácuo. Dos milhões que tinham sido, só restavam trezentos mil «selvagens».