CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 4 – por José Brandão*

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Com este acontecimento a América ganhava lugar de destaque no prestígio sindical. A pátria do Capitalismo era também o local de glória operária a nível mundial.

O período que vai de 1869 até às grandes jornadas do 1º de Maio de 1886 assinala uma página ímpar na história do movimen­to operário nos Estados Unidos. Os trabalhadores revoltam-se em massa contra a duração desumana do tempo de trabalho e pela conquista de leis que reconheçam e reforcem os direitos de organi­zação.

Entre 1870 e 1880, diversas greves de grande envergadura dão origem a violentas lutas que levarão a recontros armados. Em 1877, durante a greve iniciada pelos ferroviários de Pitsburgo, que se estendeu a toda a rede de dezassete Estados, fortes contingentes de tropas, compostos por soldados e voluntários das milícias pa­tronais são lançados contra os grevistas num confronto de propor­ções até então nunca verificadas.

Thomas Scott, presidente da Pennsylvania Railroad entre 1874 e 1880, acon­selhava: «Distribua durante alguns dias aos operários e aos grevistas uma alimenta­ção de balas de espingarda, e verá como eles assimilam esse pão.»

A batalha das oito horas de trabalho nos Estados Unidos.

Com a criação, em 1880, da Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá, a luta pela conquista das oito horas vem encontrar novas energias. De facto, ao estabelecer, em Chicago, que o dia 1º de Maio de 1886 seria o dia marcado para uma grande greve geral pelas oito horas de tra­balho, esta Federação estava a dar sinal de partida para o que em breve passaria a ser consagrado como o dia histórico dos trabalha­dores de todo o mundo.

É nesta conferência do operariado americano que, pela pri­meira vez, aparece fixado o dia 1º de Maio como data de manifes­tação proletária.

Praticamente toda a década de 80 esteve dominada por vasta campanha em favor da obtenção das oito horas de trabalho. Em 1886, muitos Estados praticavam já esse horário, embora não fosse extensivo a todos os sectores da população operária.

Os acontecimentos do 1º de Maio de Chicago surgem no âm­bito desta grandiosa epopeia do movimento operário norte-americano. As terríveis consequências da tragédia ecoarão por todo o Mundo, abalando profundamente o operariado dos Estados Uni­dos.

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As origens violentas dos sindicatos americanos.

Em poucos países do mundo o mo­vimento operário terá tido um início tão violento como nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX.

As prisões encheram-se de militantes presos ao acaso dos golpes de mão e que aca­bavam todos por ser condenados por «conspiração»: pois tornara-se de um momento para o outro considerado cons­pirativo organizar um sindicato.

Nunca foi fácil a implantação das organizações operárias em território americano. Um pouco pela indiferença do próprio opera­riado, outro tanto pela já habitual resistência do patronato a estas iniciativas, sempre houve dificuldade em os sindicatos se afirma­rem face às realidades daquele país.

Disfrutando de salários bem mais elevados que na Europa, milhões de emigrantes, habituados a um baixo nível de vida nos países de onde eram originários – e, por isso, inicialmente menos exigentes nas suas necessidades reivindicativas –, constituíam o in­terminável exército laboral que as organizações operárias tinham de «consciencializar».

A filosofia americana prevalecente era elaborada no sentido de um individualismo severo que via os sindicatos como entraves às possibilidades da livre iniciativa na criação de riqueza.

Ao grande desenvolvimento da industrialização nos Estados Unidos não corresponderia uma evolução rápida da resposta sindi­calista.

Organizado segundo o modelo das trade unions inglesas, o sindicalismo norte-americano nunca seria, no entanto, grandemen­te influenciado pelas correntes socialistas que nessa altura marca­vam o sindicalismo europeu.

Haveria de ser no campo da luta pelas oito horas de trabalho que o operariado norte-americano encontraria a sua grande coroa de glória, nomeadamente nas jornadas que culminaram nos acontecimentos de Chicago em Maio de 1886.

Desde que o presidente Andrew Johnson, do Tenessi – que sucedeu a Lincoln após o seu assassinato –, decretou a institucio­nalização das oito horas em determinadas condições, nunca o mo­vimento operário parou de lutar pela concretização plena de tal objetivo.

As greves, ainda que, na maior parte dos casos, falhadas, faziam sentir o peso e a importância desta batalha que se generalizava por todos os cantos dos Estados Unidos da América. As características do desenvolvimento do capitalismo neste país determinavam que a evolução do movimento operário ameri­cano fosse marcada por particularidades muito especiais.

Na América do Norte, as grandes extensões de terrenos livres ao alcance de qualquer um limitava os horizontes da consciência de classe do operariado.

Enquanto na Europa os operários não tinham outro remédio senão lutar encarniçadamente pela melhoria das suas condições de vida, nos Estados Unidos, grande parte dos trabalhadores indus­triais descontentes com a sua sorte podiam, no século XIX, dirigir-se para o Oeste e iniciar aí uma nova vida como rancheiros.

A colonização era estimulada pela venda de terras federais ao preço irrisório de 3 dólares por hectare. Depois de 1862, a lei cha­mada de Homestead concede gratuitamente a cada cidadão ameri­cano uma propriedade de 80 ha de terras de domínio público, desde que nelas residisse e trabalhasse mais de cinco anos consecutivos. Qualquer outra pessoa podia obter um lote de 75 ha de solos vir­gens em troca de um simbólico direito de inscrição de 10 dólares.

Durante cerca de vinte e cinco anos, todo o território dos Esta­dos Unidos ainda entregue à natureza e aos índios – Grandes Pla­nícies e Montanhas Rochosas – será alvo de uma verdadeira inva­são de milhares e milhares de colonos que se entregam aos traba­lhos da exploração agrícola e pastoril.

É uma época de gigantescas proezas. Cenas de grandeza épica fazem vibrar o solo americano. A uma hora previamente marcada do dia 22 de Abril de 1889, centenas de carroças precipitam-se à conquista do último bastião da terra proibida: a reserva índia de Oklahoma – que doravante pertencerá aos que chegarem primeiro.

Este episódio espetacular põe ponto final à colonização inter­na dos Estados Unidos. A América entra na mais espantosa época de prosperidade conhecida na história.

Nenhuma nação da história moderna pôde igualar o cresci­mento fantástico deste país, que em poucas gerações passa de uma comunidade agrária de treze colónias a uma nação poderosa capaz de ombrear com as maiores potências do mundo.

A expansão territorial dos Estados Unidos é surpreendente.

A região de Luisiana, no golfo do México, é comprada aos Franceses por quinze milhões de dólares, em 1803. A Flórida aos Es­panhóis, em 1819. O Texas tirado ao México em 1845. E, finalmen­te, o Alasca é negociado com a Rússia por 7 200 000 dólares, em 1867. Depois de o Arizona, Califórnia, Nevada, Colorado, etc., te­rem sido conquistados ao México durante a guerra de 1846-1848.

Nada conseguiu contrariar o crescimento dos Estados Unidos.

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