Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa no dia 13 de Junho de 1908. Assinalamos a passagem do 106º aniversário desta grande pintora, com trabalhos de colaboradores do nosso blogue – uma fotografia da autoria de Eduardo Gageiro e texto de Manuel Simões. Completamos esta pequena homenagem com um poema da pintora acompanhado por uma excelente tradução de Rachel Gutiérrez.
Vieira da Silva e Arpad Szénes. 1970 . “Estavam em casa de familiares em Loures, ela muito revoltada com o país”.
A celebrada pintora portuguesa cedo revelou o seu talento ao ingressar, aos onze anos, na Academia de Belas-Artes de Lisboa. E logo aos vinte anos, isto é, em 1928, decidiu transferir-se para Paris; aqui estudou com Fernand Léger e outros mestres e, neste ambiente, conheceu o pintor húngaro Arpad Szenes, com quem se casou. Durante a segunda guerra mundial, considerando que o marido era judeu e que a pintora tinha perdido a nacionalidade portuguesa, o casal “apátrida” residiu longo tempo no Brasil, onde deixou marcas na arte brasileira, sobretudo entre os modernistas. A partir de 1948 cresce o apreço da sociedade francesa pela sua pintura, com o reconhecimento público através da naturalização francesa em 1956, e de prémios e condecorações, tendo sido a primeira mulher a receber o “Grand Prix National des Arts” em 1966. Sem ter cortado os laços com a primeira pátria, favoreceu a criação da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, junto do Jardim das Amoreiras, em Lisboa, onde se pode admirar uma pequeníssima parte da sua obra inconfundível. Não ficou, por outro lado, insensível ao movimento do 25 de Abril, sendo responsável pelos cartazes “A poesia está na rua”, de colaboração com Sophia de Mello Breyner. Também desenhou os painéis de azulejos que animam as estações do Rato e da Cidade Universitária do Metropolitano de Lisboa. A última consagração, já em 2013, foi a atribuição do seu nome a uma cratera em Mercúrio, distinção conferida pela União Astronómica Internacional (MS).
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Testament
Je lègue à mes amis
un bleu céruléum pour voler haut un bleu de cobalt pour le bonheur un bleu d’outremer pour stimuler l’esprit un vermillon pour faire circuler le sang allègrement un vert mousse pour apaiser les nerfs un jaune d’or: richesse un violet de cobalt pour la rêverie une garance qui fait entendre le violoncelle un jaune barite: science-fiction, brillance, éclat un ocre jaune pour accepter la terre un vert Véronèse pour la mémoire du printemps un indigo pour pouvoir accorder l’esprit à l’orage un orange pour exercer la vue d’un citronnier au loin un jaune citron pour la grâce un blanc pur: pureté terre de Sienne naturelle: la transmutation de l’or un noir somptueux pour voir Titien une terre d’ombre naturelle pour mieux accepter la mélancolie noire une terre de Sienne brulée pour le sentiment de durée.
Maria Helena Vieira da Silva
Testamento
Eu deixo para os meus amigos
um azul cerúleo para voar alto um azul cobalto para a felicidade um azul de além-mar para estimular o espírito um vermelhão para que o sangue circule alegremente um verde musgo para acalmar os nervos um amarelo ouro: riqueza um violeta cobalto para o devaneio um carmim que faz soar o violoncelo um amarelo barita: ficção científica, cintilância, estardalhaço um ocre amarelo para aceitar a terra um verde Veronese para lembrar a primavera um índigo a fim de afinar o espírito com a tempestade um laranja para aguçar a visão de um limoeiro distante um amarelo-limão para a graça um branco puro: pureza terra de Siena natural: a transmutação do ouro um negro suntuoso para ver Ticiano um terra sombrio natural para melhor aceitar a negra melancolia um terra de Siena queimado para o sentimento da duração.
Creio que juntando pequena mancha a pequena mancha, laboriosamente, como uma abelha, o quadro se faz. Um quadro deve ter um coração próprio, um sistema nervoso, ossos e circulação. Nos seus movimentos, deve parecer-se com uma pessoa, deve ter tempo para os seus movimentos. Aquele que o olha deverá encontrar-se diante de um ser que lhe faça companhia, que lhe conte histórias, que lhe dê certezas. Porque o quadro não é a evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre riquezas em nós e à nossa volta.*
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*citação extraída da monografia Vieira da Silva, de vários autores, publicada por Skirra , Genebra, 1993.