Nos últimos anos a maior parte dos portugueses foi submetida a uma série de tratos de polé, que foram eufemisticamente designadas por medidas de austeridade, e tiveram de suportar que o seu nível de vida fosse consideravelmente reduzido. Foram informados de que essas medidas foram tomadas por causa de uma grave crise financeira que o país estaria a atravessar, motivada sobretudo por o país ter vivido acima das suas possibilidades.
Um conjunto de entidades, FMI, BCE, Comissão Europeia, juntaram-se e emprestaram uma quantia de, salvo erro, 78 000 milhões de euros, que terão servido, ao que se julga para “amenizar”, a nossa situação financeira. Terão de ser pagos ao longo de uma série de anos, com juros claro, e tivemos regularmente a visita de uns senhores que, ao que sabemos, vinham cá inspeccionar-nos e dar directrizes, tendo Portugal de pagar aos organismos a que esses senhores pertencem uma quantia avultada cada vez que cá vinham. Entretanto, a verba acima referida foi sendo disponibilizada em “tranches”, que nos (eh pá!,… ao governo) foram sendo entregues periodicamente.
Entretanto, o programa de auxílio, como lhe chamam, terminou. Da parte das entidades governamentais houve declarações de que acabou bem, com os objectivos cumpridos. Houve até, da parte de alguns ministros, manifestações entusiásticas. Entretanto soubemos que a situação económica do país vai tão bem, que o governo resolveu prescindir da última “tranche”. Depois, disseram-nos que a situação económica não vai bem, mas que é possível contrair empréstimos a juros mais baixos do que os que se pagam pelo empréstimo da troika. E houve uma notícia no sentido de que agora já não é possível ir buscar o empréstimo, sem ter de reabrir o programa da troika. Que o governo não pôde receber essa “tranche”.
O programa da troika serviu para encobrir um ataque frontal aos funcionários públicos e aos pensionistas/aposentados. Isso já muita gente percebeu. E para encobrir que a crise foi causada pela má situação dos bancos, causada pela especulação financeira. À sua sombra foi privatizado grande parte do património público, em condições péssimas para o país (para os portugueses em geral), agravadas as condições dos trabalhadores e dos seus dependentes e agravou-se a situação de dependência em que vivemos. Em relação a este último ponto basta olhar para o agravamento da dívida externa (a tal que temos todos de pagar), para o desemprego e para a emigração. Pequenas melhorias na balança comercial não chegam para disfarçar.
Ao pé disto tudo, a dispensa da última “tranche” é com certeza apenas um episódio secundário. Mas serve para mostrar a inconsistência da política de austeridade. Dispensá-la se daí derivaram vantagens é sensato. Mas porque se diz que não se pôde receber? Trata-se de uma ponta de um véu que foi levantado imprudentemente, de uma medida pouco sensata, ou mal explicada? Já nadaremos assim tanto em dinheiro?