EDITORIAL – NÃO É SÓ EM GAZA QUE MORREM CRIANÇAS INOCENTES
clara castilho
Andamos muito emocionados com as fotos das crianças mortas na praia dacidade de Gaza. Sim, com razão. Esta é a última frente de batalha com a qual nos sentimos unidos. Mas não sabemos, por exemplo, como está a ser a vida das crianças na Ucrânia, no local onde foi abatido o voo MH17, facto que poderá estar a ser o início de um novo período de conflito, já não regional, mas mundial.
Sabemos, isso sim, que nas últimas e variadas formas de guerra morrem mais crianças do que soldados. Graça Machel, no Relatório sobre “Crianças na Guerra” (1996) disse: “As crianças não só apanhadas nos fogos cruzados, também são mortas com fins específicos”. No Afeganistão as crianças continuam a ser vítimas das minas ainda existentes.
Lembremos o pior local actual para as crianças: a Síria, onde quase 12.000 crianças foram assinaladas como tendo sido mortas nos últimos 30 meses.
Outra forma de as atingir são os ataques a escolas e hospitais.
E as crianças soldados? Foi lançada, em Março, pela UNICEF, a campanha “Crianças, não soldados”, tentando alertar-nos para a grave consequência da sua utilização.
O último Relatório Anual sobre as crianças nos conflitos armadas documenta casos de crianças recrutadas e usadas por exércitos de 7 nações e 50 grupos armados lutando na África Central, no Sul do Sudão, Síria e mais 11 países. Assim se vê que os direitos das crianças são violados às claras, com total impunidade.
Umas vezes, pela utilidade imediata, outras, em casos de conflitos étnicos, para tentar aniquilar as gerações seguintes. Indo ainda mais longe, já uma ultra nacionalista israelita veio dizer que se deveriam matar as mães palestinas, para não nascerem mais crianças…
É muito difícil continuar a seguir o poema de António Gedeão: “Eles não sabem, nem sonham,/que o sonho comanda a vida,/que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança”…..