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OS MEUS DOMINGOS – ANTROPÓFAGOS – por ANDRÉ BRUN

(1881 - 1926)

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1881 – 1926

 

III

Esta do mineralogista boche, que foi ao bucho – se permitido me é este trocadilho um tanto bicho – fez-me lembrar outro caso a que assisti quando, como acima ficou dito, eu era um dos mais assíduos banhistas das praias papuásicas.

Um dia vinha eu, todo às riscas verdes e vermelhas – que lindo fato de banho tinha eu nesse tempo! – a fugir do mar e dum jacaré que queria deitar os dentes à minha plástica opulenta, quando notei grande ajuntamento na praia. Tendo-me acercado com ar indiferente, vi um grupo de selvagens cercando um europeu, que, por certo sinal de cabelo na omoplata, logo reconheci ser inglês e estava, de pés à cabeça, vestido de audaz explorador.

Segundo explicava a vox populi, sucedera ao audaz explorador o que veio a acontecer mais tarde ao astuto mineralogista: fora caçado na floresta por um dos circunstantes.

Aproximei-me dele e, fazendo uso dos sinais dos surdos-mudos, disse-lhe com toda a sinceridade:

– Ó camarada! Estás aqui, estás papado.

Fiquei absolutamente estupefacto com o sorriso tranquilo que ele me remeteu na volta do correio. Tenho visto muitos audazes exploradores; mas com aquele sangue frio confesso que nenhum.

Os papuas tinham acendido uma enorme fogueira e ocupavam-se em instalar um formidável espeto. Era assado que o inglês ia terminar os eus dias.

A certa altura o papua chefe voltou-se para a vítima e disse-lhe:

– Para evitar discussões e brigas como as que várias vezes se têm dado em iguais circunstâncias, o meu amigo não se melindre e permita que, antes de o comermos, o dividamos e distribuamos os bocados a quem competem.

– Ora essa! Método e organização são a minha divisa – explicou o inglês.

– Ah! Então calha muito bem.

Voltando-se para um dos papuas – papua seco, por tal sinal – o chefe indagou:

– Dize lá tu, Eminência, o que te apetece deste senhor? A asa? O peito?

O selvagem mediu o inglês de alto a baixo e acabou por se decidir:

– Não. Antes quero uma perninha.

– Pois não, cavalheiro, atalhou o audaz explorador.

E, arregaçando a calça, desaparafusou uma das pernas, que era de madeira, entregando-a ao camarada que fizera empenho nela. Houve um momento de surpresa, e um outro dos presentes gritou:

– Eu quero um braço…

– Às suas ordens – concordou o inglês, desroscando um dos braços, que era artificial, de borracha e couro, não desfazendo.

– Cá por mim preferia o nariz – declarou uma das senhoras.

– Não tenha dúvida que é um petisquinho de «in-penca» – afirmou o nosso amigo, arrancando da cara um nariz de prata.

Voltando-se para um pequeno, que estava cerca, deu-lhe uma palmadinha nas bochechas e, com o seu melhor sorriso, perguntou:

– O meu menino não quere comer um olhinho do seu amigo?

– Quéo, quéo – aceitou o miúdo batendo as palmas.

O explorador, com um gesto elegante, tirou de uma das órbitas um olho de vidro e deu-o ao papuazinho.

Entretanto, os que já tinham sido contemplados estavam tratando de ver se era possível meter dente na perna de pau, no braço de borracha e no nariz de prata. Não havia maneira.

A certa altura, furiosos, tendo já partido vários dentes, voltaram ao grupo e, atirando com seu quinhão aos pés do chefe, exclamaram:

– Fógospilu abecassis serapitóia.

Queriam eles dizer que o inglês era intragável, que não havia maneira de entrar com aquele primo de Lloyd George. O chefe ainda quis distribuir o recusado a outros circunstantes, mas todos a quem se dirigiu apresentaram desculpas:

– Muito obrigado. Já almocei…

– Tenha paciência, mas hoje é dia de peixe… Só como marujos.

– Ando num regime. Apenas tomo crianças de seis meses e arroz seco…

O audaz explorador tornou a aparafusar a perna, a roscar o braço, colocou o nariz e, tendo aceite as explicações do chefe, o qual lhe pedia desculpa do incómodo, deitou-se à procura do olho de vidro, que era azul e lhe ficava muito bem ao parecer, apesar de o verdadeiro ser castanho.

Foi dar com a mamã do menino aflitíssima, pois o pequeno engolira o olho sem querer. O inglês teve que esperar o dia seguinte para poder tirar o retrato destinado a sair no “magazine” da terra.

 

11 de Março de 1923

 

 

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