
III
Esta do mineralogista boche, que foi ao bucho – se permitido me é este trocadilho um tanto bicho – fez-me lembrar outro caso a que assisti quando, como acima ficou dito, eu era um dos mais assíduos banhistas das praias papuásicas.
Um dia vinha eu, todo às riscas verdes e vermelhas – que lindo fato de banho tinha eu nesse tempo! – a fugir do mar e dum jacaré que queria deitar os dentes à minha plástica opulenta, quando notei grande ajuntamento na praia. Tendo-me acercado com ar indiferente, vi um grupo de selvagens cercando um europeu, que, por certo sinal de cabelo na omoplata, logo reconheci ser inglês e estava, de pés à cabeça, vestido de audaz explorador.
Segundo explicava a vox populi, sucedera ao audaz explorador o que veio a acontecer mais tarde ao astuto mineralogista: fora caçado na floresta por um dos circunstantes.
Aproximei-me dele e, fazendo uso dos sinais dos surdos-mudos, disse-lhe com toda a sinceridade:
– Ó camarada! Estás aqui, estás papado.
Fiquei absolutamente estupefacto com o sorriso tranquilo que ele me remeteu na volta do correio. Tenho visto muitos audazes exploradores; mas com aquele sangue frio confesso que nenhum.
Os papuas tinham acendido uma enorme fogueira e ocupavam-se em instalar um formidável espeto. Era assado que o inglês ia terminar os eus dias.
A certa altura o papua chefe voltou-se para a vítima e disse-lhe:
– Para evitar discussões e brigas como as que várias vezes se têm dado em iguais circunstâncias, o meu amigo não se melindre e permita que, antes de o comermos, o dividamos e distribuamos os bocados a quem competem.
– Ora essa! Método e organização são a minha divisa – explicou o inglês.
– Ah! Então calha muito bem.
Voltando-se para um dos papuas – papua seco, por tal sinal – o chefe indagou:
– Dize lá tu, Eminência, o que te apetece deste senhor? A asa? O peito?
O selvagem mediu o inglês de alto a baixo e acabou por se decidir:
– Não. Antes quero uma perninha.
– Pois não, cavalheiro, atalhou o audaz explorador.
E, arregaçando a calça, desaparafusou uma das pernas, que era de madeira, entregando-a ao camarada que fizera empenho nela. Houve um momento de surpresa, e um outro dos presentes gritou:
– Eu quero um braço…
– Às suas ordens – concordou o inglês, desroscando um dos braços, que era artificial, de borracha e couro, não desfazendo.
– Cá por mim preferia o nariz – declarou uma das senhoras.
– Não tenha dúvida que é um petisquinho de «in-penca» – afirmou o nosso amigo, arrancando da cara um nariz de prata.
Voltando-se para um pequeno, que estava cerca, deu-lhe uma palmadinha nas bochechas e, com o seu melhor sorriso, perguntou:
– O meu menino não quere comer um olhinho do seu amigo?
– Quéo, quéo – aceitou o miúdo batendo as palmas.
O explorador, com um gesto elegante, tirou de uma das órbitas um olho de vidro e deu-o ao papuazinho.
Entretanto, os que já tinham sido contemplados estavam tratando de ver se era possível meter dente na perna de pau, no braço de borracha e no nariz de prata. Não havia maneira.
A certa altura, furiosos, tendo já partido vários dentes, voltaram ao grupo e, atirando com seu quinhão aos pés do chefe, exclamaram:
– Fógospilu abecassis serapitóia.
Queriam eles dizer que o inglês era intragável, que não havia maneira de entrar com aquele primo de Lloyd George. O chefe ainda quis distribuir o recusado a outros circunstantes, mas todos a quem se dirigiu apresentaram desculpas:
– Muito obrigado. Já almocei…
– Tenha paciência, mas hoje é dia de peixe… Só como marujos.
– Ando num regime. Apenas tomo crianças de seis meses e arroz seco…
O audaz explorador tornou a aparafusar a perna, a roscar o braço, colocou o nariz e, tendo aceite as explicações do chefe, o qual lhe pedia desculpa do incómodo, deitou-se à procura do olho de vidro, que era azul e lhe ficava muito bem ao parecer, apesar de o verdadeiro ser castanho.
Foi dar com a mamã do menino aflitíssima, pois o pequeno engolira o olho sem querer. O inglês teve que esperar o dia seguinte para poder tirar o retrato destinado a sair no “magazine” da terra.
11 de Março de 1923

