EDITORIAL – Circular é viver (ou a quadratura do círculo)
carlosloures
Há umas décadas atrás, o povo de esquerda acreditava que as «contradições do capitalismo» iriam em breve determinar a sua morte. Dizia-se que a principal contradição do sistema residia no modo de produção, baseado na exploração intensiva da força de trabalho, e na apropriação privada dos meios de produção, apropriação que permitia a acumulação do capital. Num manual dos anos 70 dava-se um exemplo de contradição – não se pode afirmar ao mesmo tempo que uma sala é circular e quadrada. Não pode? Ai não que não pode – o sistema aprendeu a viver com as suas contradições e até a transformá-las em fonte de energia – a quadratura do círculo, problema que, segundo os geómetras da Antiga Grécia, é de solução impossível. Os anarcas resolveram explicar a impossibilidade, proclamando «Circular é viver – por isso é que os cemitérios são quadrados!»
O conflito racial nos Estados Unidos ocupa hoje as primeiras páginas dos jornais e deverá ser notícia de abertura dos noticiários televisivos. Como se obedecesse à coordenação de uma régie, a Palestina passa por uma relativa acalmia, com uma trégua de duvidosa eficácia a reduzir a violência dos confrontos.
O governador do Missouri, perante um Obama indeciso e impotente, põe a Guarda Nacional nas ruas de Ferguson. A autópsia encomendada pela família do jovem negro morto, revela que Brown foi baleado a menos de 30 centímetros, contrariando a análise forense feita pela polícia. Ferguson, Faixa de Gaza, Iraque… O capitalismo exibe com orgulho as suas esplendorosas contradições.
O sistema envergonhava-se das suas contradições e reprimia a sua denúncia, como se com essa repressão modificasse a realidade. Hoje as contradições alimentam a indústria da informação – do genocídio em Gaza à violência policial em Ferguson, as régies escolhem. Em Portugal, saturados do escândalo do BES e das trôpegas desculpas de Ricardo Salgado, descobre-se que no PS de Braga, há militantes mortos a pagar as quotas ( e com direito de voto) – um excepcional sentido de militância que perdura para lá do limiar do Além, ou uma tão forte vontade de participar na vida partidária, que nem a morte apaga. A quadratura do círculo?