A CRISE AUSTERITÁRIA E A QUADRATURA DO CÍRCULO – REFLEXÕES SOBRE A CRISE DA ECONOMIA, DO PENSAMENTO ECONÓMICO E DA DEMOCRACIA – TEXTOS DE REFERÊNCIA PARA ENTENDER A REALIDADE PRESENTE – B) BILL MITCHELL. 8. PARA UM CONCEITO PROGRESSISTA DE EFICIÊNCIA – PARTE 1 – I

Obrigado ao blog do tirloni.
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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Bill Mitchell
Bill Mitchell

Para um conceito progressista de eficiência

bottlebrushheader980

Bill Mitchell, Towards a progressive concept of efficiency – Part 1

Billy Blog, 18 de Julho de 2016

Antes de apresentar a segunda parte da minha discussão sobre a relevância da re-nacionalização para o que eu chamaria de uma agenda política verdadeiramente progressista, temos que voltar um pouco bem trás. Sublinho, depois da primeira parte – Brexit signals that a new policy paradigm is required including re-nationalisation –- que houve alguns comentários enviados (e muitos mais e-mails recebidos – aparentemente de leitores mais felizes por me criticarem pessoalmente ao invés de colocarem as suas ideias em domínio público) que eu estava a defender um retorno aos “maus” velhos tempos das nacionalizações onde o nepotismo, a ineficiência e o bastardismo sindical eram a norma. O ponto óbvio seguinte era – como é que eu posso afirmar que isso é progressista e vir a ser parte do futuro. Nestas duas partes do presente trabalho (a segunda parte virá amanhã), vou apresentar uma estrutura para avaliar essas alegações. Hoje centro-me na visão neo-liberal da eficiência e quero mostrar como é que este conceito é de fraco sentido e enviesado face aos lucros privados. Na parte 2 (amanhã), apresentarei a visão progressista e como é que esta condiciona a forma como pensamos em termos de eficiência. Uma vez nós que acabemos com as construções neoliberais e recentremos a nossa atenção na sociedade, ao invés do indivíduo, então a via através da qual podemos avaliar as opções políticas também se altera e torna-se mais rica com novas possibilidades e com novas capacidades de entendimento. Vamos entrar no mundo progressista e deixar para trás a austeridade pesadelo que o neoliberalismo criou. Então somos capazes de ver como é que as nossas velhas concepções de indústrias nacionalizadas ou criação de empregos do sector público são contaminadas com esses preconceitos neoliberais. E então somos capazes de ver como é que as iniciativas políticas que invocam o escárnio de conservadores e de muitos chamados progressistas modernos (obcecados pelas construções pós-modernas) têm um papel vital a desempenhar num manifesto verdadeiramente progressista . Eu dividi a discussão em duas partes, porque os textos são mesmo muito longos.

Este texto é parte da parte 3 do próximo livro (tendo como co-autor, o jornalista italiano Thomas Fazi), que está em fase de conclusão. Esta parte 3 irá apresentar o que estamos a chamar um Manifesto’ progressista ‘ para orientar a concepção política e as opções de política para os governos que estão a  lutar para ver uma via de saída para além da macroeconomia neoliberal que podemos postular como sendo um verdadeiro um flagelo face à esperança de estabelecer  uma agenda progressista.

Esperamos também que o ‘Manifesto’ venha a ser material de apoio para grupos comunitários, demonstrando que o mantra de TINA, onde estes alegados objetivos dos mercados financeiros globais amorfos são prioritários relativamente aos verdadeiros  objetivos como o pleno emprego, as energias renováveis e a revitalização de sectores da indústria transformadora, está despojado de qualquer sentido, assim como iremos mostrar que uma gama de opções políticas, até agora tabu neste mundo neoliberal, estão pois disponíveis.

Como já observei antes, na parte 3 do livro  iremos considerar os seguintes tópicos de política específica (re-organizados a partir de apresentações anteriores), enquadrados em uma exposição da teoria monetária moderna (TMM ) e apoiados numa linguagem progressiva.

  1. As restrições ambientais sobre o crescimento – a necessidade para o crescimento e a mudança na composição do crescimento. A utilização na regulação versus o sistema de preços para gerar mudanças na afectação dos recursos– por exemplo, impostos sobre o carbono (sistema de preços) versus legislação a proibir certas actividades altamente poluidoras ( encerramento de minas de carvão). O papel do setor público como um investidor, produtor e empregador na mudança de prioridades de crescimento.

  2. A garantia de emprego versus garantia de rendimento –o papel do trabalho na sociedade, a utilização de garantia de emprego como um meio de mudança de perspectivas no trabalho produtivo. A ascensão de fabricação robótica etc. Entender o conceito de eficiência num sentido social em oposição a estreitas concepções baseada na apropriação privada dos lucros.

  1. o estado empresarial – o papel do governo no processo de inovação. O conceito de regiões assentes em inovação contra as cinturas em declínio e a revitalização da produção (procurar deixar de produzir barato para procurar produzir com alto valor acrescentado).

  2. As limitações do setor externo – noções básicas sobre o poder dos mercados financeiros em face do Estado. Compreender quando é que os controlos sobre os capitais e as importações (proteção comercial ) são apropriados. Os mitos da livre-troca e dos ganhos de comércio justo.

  3. reduzindo a desigualdade de rendimento e da riqueza assim como a dependência das famílias do endividamento– corrigir o fosso crescente entre o crescimento dos salários reais e o crescimento da produtividade e a dependência crescente de crescimento relativamente ao crédito privado para que haja crescimento. Restaurando o papel dos sindicatos, como forças progressistas.

  1. Enfrentar a natureza improdutiva dos mercados financeiros- regulação dos mercados financeiros e reforma do sistema bancário – nacionalização da banca- proibindo um significativo número de operações financeiras. Criticando a regulação financeira que se apoia sobre o sistema de preços (propostas de imposto Tobin etc).

  2. Regressar a uma visão económica mista com o planeamento estatal – abandonar o conceito de mercado ‘livre’ auto-regulador, reforçando o papel do estado no sistema de produção e de distribuição. Argumentos para apoiar a re-nacionalização das indústrias chaves, tomando o exemplo do caso francês de antes dos anos 80 como sendo um estudo de caso positivo.

  3. Re-escrever o quadro internacional com propostas de reformulação do sistema de financiamento internacional , incluindo o desmantelamento do FMI e substituindo-o por uma nova agência que ajude as nações pobres a sobreviver aos problemas de balança de pagamentos (por exemplo, quando eles são dependentes de alimentos importados ou da energia). Iremos demonstrar que um manifesto progressista deve reconhecer o poder do Estado e que também deve reconhecer  a importância da dimensão internacional pelo internacionalismo contra o supranacionalismo actual !

  4. Movimentando-nos para além da armadilha progressista da pós modernidade.

(continua)

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Ver o original em:

Towards a progressive concept of efficiency – Part 1

 

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