«…miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.»
(In memoriam de Fialho de Almeida)
Ah! Quem me dera tornar atrás! Voltar ao tempo em que tinha uma gata chamada «Nina», que se equilibrava sobre a rua, no parapeito da janela… Nesse tempo, era eu mais novo uns 20 anos… e não gostava particularmente de gatos. Habitava um velho 3º andar em Alfama e entretinha-me à tarde, depois de sair do trabalho, a espreitar os telhados de Lisboa e a ouvir telefonia. Quando a cidade ainda tinha telhados, chaminés, muitos gatos atrás das varinas (“Olhá sardinha fresca! Vivinha da Costa!”) cheias de varizes, coitadas, e as várias telefonias do prédio escorriam para a rua, das janelas com canteiros, músicas de sonoridades catitas!
Nessa altura, não sabia que a existência da gata dentro de casa pudesse vir a fazer de mim um admirador agradecido… Mas tudo se explica…
Tudo começou… Bem, como sabem, os gatos podem viver sempre dentro de casa e, se habituados, são extremamente agarrados a uma habitação e a todas as suas dependências. Como todos os felinos, a minha gata não tinha “alma”, pelo que pouco haverá a contar da sua rotina animal, além do profundo conhecimento que aparentava ter de todos os recantos da casa.
A ingenuidade não pode resignar-se aos gatos, pois se os egípcios os tinham em grande conta, já o Ocidente cristão lhe reserva uma panóplia de histórias maléficas, acompanhando bruxas e, nalgumas lendas, configurando neles o travesti do próprio diabo… Podem os gatos perdoar e ter fidelidades? Não o creio, do centro do seu egoísmo, os gatos achincalham, troçam e volteiam nas garras toda a tendência humana para a amizade…
A ruína da casa reinava então na obscuridade, sendo coisa barata para o senhorio estender-lhe o véu do “faz-de-conta”. De rabo alçado, “Nina” caminhava por toda o apartamento livremente e, às vezes, dava-me arranhões fingidos, superficiais, como que a reconhecer, do cimo do seu individualismo, a vaga necessidade de me agradecer comida a tempo e horas e outros cuidados de entretém…
Deu-se o caso que um dia (ou uma tarde) “Nina” apareceu com a “mania” ou a neura de olhar fixamente para um ponto na sala de jantar. Um ponto vazio na parede ou no tecto, sem nada a assinalar. Depois, começava esgadanhando, arranhando o vazio e bufando durante uns minutos, como se registasse a presença de alguém e, essa figura invisível, tivesse o condão de a tornar efectivamente possessa. Entretanto, a cauda de “Nina” eriçava-se, as costas arqueavam-se e, em segundos, disparava numa correria louca pelo pequeno corredor da casa, indo-se esconder debaixo da cama do quarto… Dias depois, começava a limpeza nervosa do seu corpo numa dada zona, mordendo-a e lambendo-a com tal intensidade que acabou a criar uma mancha de calvície.
Tempo depois, reparei que “Nina” nunca mais entrou na sala, rolando mansa ou receosa, mas evitava sempre aquele espaço. Chamava-a eu com comida, e ela nada, nem um passo fazia em direcção à sala. Tentei pegar-lhe ao colo, disfarçando a intenção, mas logo que entrei na sala tagarelando para a seduzir, eriçou-se toda, deu-me um arranhão e escapuliu-se do colo, escondendo-se durante dias, sem se deixar ver de forma alguma…
Passados dias, como que envergonhada, de focinho semi-escondido, apareceu-me a roçar a cabeça pelo cano das minhas calças, como que a pedir desculpas…
Bem, lamento não contar tudo ao pormenor, mas foi espantoso como “Nina” repetiu o mesmo procedimento para com as outras divisões da casa. Correu todas e, depois praticar a mesma algazarra e assanhamentos, passava a evitar entrar nessas mesmas divisões. Por fim, assentou o seu quartel-general no corredor, enroscada sobre o tapete junto à porta que dava para as escadas do prédio.
Um conhecido, a quem contei estas atitudes da gata, começou a debitar-me um discurso sobre a sagacidade dos gatos, desde o antigo Egipto dos Faraós. Para ele, os gatos podiam sentir e, talvez até ver, através de um feitiço qualquer que não sei explicar, o balanço trágico dos fantasmas e, no meio das suas insónias de mistério, estes felinos sentiam a presença das “almas do outro mundo”… Na realidade, o 3º andar que havia alugado tinha uma história triste, segundo os vizinhos mais velhos: – Nos seus quartos haviam morrido, com intervalos de 24 horas certas, os sete filhos de um casal de algumas posses. Claro que isto sucedera há cerca de 100 anos!
Para este meu conhecido não restavam dúvidas: – A gata “Nina” começou a sibilar e a fugir no dia em que viu pela primeira vez as “almas-penadas” das crianças mortas!
Fosse como fosse, o seu procedimento era realmente extraordinário, tendo em conta a irracionalidade dos felinos. Nem o veterinário onde levei a gata, atinava com esta aversão tão circunscrita, de que nunca a consegui curar.
Mudei de casa. Na altura ofereci a gata a um casal que morava no prédio em face. Mas parece que a gata fugiu que nem uma flecha para a rua, indo refugiar-se numa árvore do jardim próximo, e nunca mais foi possível devolvê-la àquela rua…
Outro dia, a pretexto de “matar saudades” de mais de 50 anos, voltei à rua de Alfama… Verifiquei que a artéria quase desapareceu com as demarcações para construções novas. O Sol que se fixava no céu, impetuoso de calor, registou a minha admiração: – O prédio onde eu morava havia-se desmoronado a meio!
Olhei o meu antigo 3ºandar… Lá estava ele, com parte das divisões à mostra, descascadas… No meio daquela visão de escombros, lembrei-me da gata “Nina”… Ai, caros leitores, logo fiquei arrependido de pensar mal da bichana. Porque não mo dizia ela!? Perdão, os animais não falam!
Exactamente nos locais que “Nina” havia fixado outrora, assanhando-se “despropositada”, pensara eu, exibiam-se as rachas enormes que haviam feito ruir o prédio! …
A unidade animal que houve, talvez, entre todos os seres do princípio do mundo, refez-se exemplarmente há 50 e tal anos atrás, colocando “Nina” a avisar o seu dono do perigo, quando sentia e via, com os seus olhos, as fendas a rasgarem-se aos poucos pelas paredes das divisões do 3º andar…
Desde então, mantenho que não gosto de gatos, com excepção de “Nina” que via “fantasmas”, mas esses eram de… pedra, tijolo e argamassa!

