CARTA DE ÉVORA – Fialho de Almeida e a Gastronomia Nacional – por Joaquim Palminha Silva

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«Tártaro de novilho com chalotas doces e picantes, “ praliné” de amendoim e espuma de coco» – «Crítica gastronómica» in Jornal Público, texto de José Augusto Moreira, 28/3/2015 *

Com a Primavera e o Verão, começa a dinâmica da gastronomia alentejana a atingir os níveis de bacoquice sabidos… Além doImagem1 “congresso das açordas” em Portel, perfilam-se no horizonte cartazes turísticos para promoções várias, que acabam por ser o trampolim que faltava para despoletar a gargalhada provocada pelo ridículo, como nos demonstra, por exemplo, a isolada cabeça de asno a ocupar todo o “grafismo” do cartaz da 32ª edição da «Ovibeja» (certame anual realizado em Beja, sob a “evocação” da ovelha). Há uma mancebia aberrante, entre os dias mornos ou quentes deste período e a entranhada necessidade de produzir e, depois, expandir por vilas e cidades um mostruário de “parvoíces”… gastronómicas: – A encimar esta crónica aí vai uma que é quadro perfeito, animado, vivo, palpitante dos tempos que passam.

Sobre a gastronomia nacional escrevia Fialho de Almeida, com acinte premonitório n’Os Gatos, corria o ano de 1891: «A desnacionalização da cozinha é para mim, talvez primeiro que a dos sentimentos e das ideias, revelada pela vida pública, o primeiro avanço indicativo da derrocada dos povos». O Alentejo possui produções que se bastam a si mesmas, pela qualidade e engenho que encerram, rica e variada gastronomia, sem dúvida. Por isso, é escusado no plano agro-alimentar enveredar pelas atribulações do turismo estrangeirado, além de nos divulgarem pelo anedótico, só sevem para nos darem voltas ao estomago e desagradarem à vista.

A tudo isto respondeu há 124 anos Fialho de Almeida. Vale a pena transcrever o irónico beliscão do escritor na lusa vaidade: «O estrangeirismo, ou monomania de adaptação do estrangeiro à vida nacional, enxertado sem critério nem precisão imediata, e até com manifesta inferioridade nos resultados, é uma das formas de pessimismo dos povos amortecidos por um longo regímen de vícios públicos e privado, e no resvale da autonomia cívica, que unicamente poderia dar-lhes força.». As palavras do escritor, neste texto de Os Gatos, não são infelizmente nostálgicas, graças à decadência geral onde nos enlameamos todos os dias, a começar pela gastronomia. Em vez de propaganda balofa e anedótica, seria bem mais útil que as Autarquias envolvidas nesta dinâmica de divulgação dos produtos, serviços e recursos mais genuínos do Alentejo, enveredassem por alguma pedagogia (reeditando este texto de Fialho de Almeida, por exemplo), explicando porque motivos uma açorda de alhos é bem melhor do que uma pizza “plastificada”; porque é que um ensopado de borrego é melhor do que um hamburger; porque é que um enchido de carne de porco criado no montado é melhor do fabricado a partir de um animal mantido em cativeiro e alimentado a ração; porque motivo o mel do Alentejo é um dos melhores do País; porque motivos os frutos secos do Alentejo são os melhores para sobremesa do que os bolinhos secos made in… Tenho pena, muita pena, de não ter saber que baste para miudamente travar a patetice autóctone em matéria gastronómica. Por isso, pschiu!, deixo aqui as palavras de Fialho de Almeida: «De sorte que chegámos a isto: em Portugal não há hoje onde comer – em português. Concordarão que o assunto vale bem uma cruzada patriótica, destinando-se a reintegrar o País no usufruto das suas primitivas ucharias. Um povo que defende os seus pratos nacionais defende o território. A invasão armada começa pela cozinha».

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