CARTA DE ÉVORA – O capitão José Gonçalves Sabino – O 1º piloto do Canal do Suez? – II – por Joaquim Palminha Silva

        evora    Atento ao efeito mágico dos reais convidados, das comitivas e das esquadras, das gentes e manifestações feéricas, o escritor Eça de Queirós deixou que lhe escapasse um apontamento tipicamente “lusitano”, nesse dia 17 de Novembro de 1869. “Apontamento” paradigmático, desses que dizem mais sobre Portugal e os portugueses que todos os estudos sociológicos…

    Imagem1         Descuidado e confiante, o governo de Lisboa, oficialmente convidado para o acontecimento do século, resolveu mandar o “melhor” vaso de guerra ao Egipto, a corveta «Estefânia», de forma a representar Portugal. Porém, em pleno Mar Mediterrâneo, numa zona denominada «gata», desencadeou-se uma daquelas tempestades que só acontecem aos «lusíadas». A deficiente acção dos marinheiros e a frustrante surpresa que a tempestade provocou, acrescidas de alguns pormenores técnicos, deve ter “inibido” bastante o vaso de guerra que, desconjuntado, não pode figurar a tempo nas cerimónias oficiais em Port Said. Enfim, se este era então o melhor vaso de guerra da Armada portuguesa… estamos conversados!

            Não oficialmente, Portugal estava “representado” pelo escritor Eça de Queirós e seu amigo, o conde de Resende, Luís de Castro Pamplona… Foi então que surgiu o acaso, sem que o escritor o tenha visto, a moldar a História…

            Tinha largado do Tejo, com a antecedência de dois dias da corveta «Estefânia», a galera «Viajante» embarcação mercante pertença da firma «Bessone & Barbosa», comandada pelo capitão José Sabino Gonçalves que, às suas ordens, tinha vinte marinheiros. A galera dirigia-se a Macau e, muito próxima do navio de guerra, sofreu o mesmo temporal, mas bem manobrada conseguiu entrar em Port Said galhardamente. Era o dia de inauguração do Canal de Suez…

            No meio daquela azáfama inaugural, parece que não se encontrou um piloto que assegurasse, como “batedor”, a segurança da travessia do canal pelas embarcações oficiais. Então, José Sabino Gonçalves, talvez pensando que reluzia a sua hora de glória, ofereceu-se para a tarefa, que desempenhou com eficácia. A glória, se assim posso dizer, foi pois arrebatada duplamente por um capitão da marinha mercante (civil!) e, através dele, para o Portugal país, e não para o “País do governo”…

            A crónica avulsa deste sucesso que escapou ao “snobismo” do escritor Eça de Queirós que, assim, perdeu a oportunidade de escrever umas belas páginas, veio publicada, assinada por «Abranches» e muito resumida, na revista Ocidente (32º ano, XXXII, vol. nº1098, 30/7/1909). A origem da notícia prendeu-se então com a comunicação do falecimento, a 25 de Maio de 1909, de José Sabino Gonçalves (aos 73 anos), natural da bela localidade marítima S. Martinho do Porto, onde havia iniciado a sua actividade de homem do mar com apenas 9 anos de idade!

A veracidade deste sucesso do velho “lobo-do-mar” parece tem sido contestada no decurso de vários anos. Não se percebe porquê… Por fim, nos anos 90 deste século, alguém colocou na “Internet”, sob o nome do capitão, sem referência alguma fiável a notícia de que havia aparecido o «diário de bordo» da galera «Viajante», onde era mencionada a travessia do canal… mas nove dias depois da inauguração… Enfim, todas as notícias até então conhecidas seriam portanto pura fantasia! – Mas há aqui (continuo sem saber porquê?) “gato escondido com rabo de fora”…

É que a galera «Viajante» foi abatida ao largo de Porto Santo, a 2 de Outubro de 1917 por um submarino alemão, salvando-se a muito custo os doze homens da sua tripulação… Presume-se, pois, que o «diário de bordo», que sempre acompanha a sua respectiva embarcação, deve ter feito companhia aos doze marinheiros, “nadando” com enérgicas braçadas, e sem desbotar a escrita, a caminho do salvamento!

 

 

 

 

 

 

 

 

evora

1 Comment

Leave a Reply