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SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – 21. RENZI – O POPULISMO TECNOCRÁTICO DO GRANDE REFORMADOR – ENTREVISTA A EMILIANO BRANCACCIO “A DOUTRINA DA PRECARIEDADE EXPANSIVA É A NOVA ILUSÃO EUROPEIA” – por LUCA SAPPINO

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Brancaccio: “ A doutrina da precariedade expansiva é a nova ilusão europeia”

 

Entrevista de Luca Sappino, La dottrina della precarietà espansiva è la nuova illusione europea”

L’Espresso online, 18 de Março de 2014

O economista crítico Emiliano Brancaccio não poupa uma a Matteo Renzi. A reforma do trabalho, “será um buraco na água”, porque se mostra claramente “que mais precariedade não quer não dizer mais emprego”. Pelo contrário, “a aposta sobre a corrida à baixa salarial pode levar completamente à deflação, e com a deflação arrisca-se a agravar ainda mais a crise da dívida”. Brancaccio contudo está convencido que Renzi tem fé nas suas promessas, apesar das garantias dadas a Angela Merkel sobre as relações da dívida, a começar pelos oitenta euros a pagar sobre os mais baixos salários. “Ultrapassamos nalguma décima ”, o rácio que publicamente assegurou respeitar, porque o que se está a “perfilar é a mudança entre um pouco menos de austeridade e e um pouco mais de liberalização com as reformas do mercado de trabalho.

As reformas imaginadas por Renzi, o trabalho em primeiro lugar, convenceram a Alemanha. É isto o importante da cimeira, e não uma revisão da política de austeridade?

Parece-me que na realidade se perfila o cenário que tínhamos previsto “no aviso dos economistas”, publicado em Setembro passado no Financial Times. A doutrina “da austeridade expansiva”, segundo a qual a política de austeridade deveria assegurar o crescimento, é posta pelo menos temporariamente à margem da discussão. Não é por acaso que Merkel não se concentrou muito sobre as restrições orçamentais. Sobretudo, terá insistido sobre uma nova doutrina, que poderíamos chamar “da precariedade expansiva”: a ideia é a de que através de doses adicionais de precarização do trabalho se deveria gerar o crescimento dos rendimentos e do emprego.

Pelo tom não me parece muito convencido?! …

“O risco está em que se está a passar de uma velha ilusão para uma nova ilusão. Já a tese da austeridade expansiva não tinha nenhum apoio científico ou empírico a justificá-la. E na verdade em vez de favorecer a retoma, a austeridade apenas alimentou a depressão. Mas a nova doutrina também não encontra nenhuma confirmação nos dados empíricos: as evidências empíricas, quer pelo lado da OCDE quer do Fundo Monetário Internacional, pois dizem-nos estas instituições que a flexibilidade do trabalho não está correlacionada ao aumento do emprego. Os contratos precários estimulam talvez os patrões a empregar mas favorecem também a destruição de postos de trabalho nas fases de crise. O efeito nítido é próximo de zero “.

Da cimeira Renzi-Merkel para além do acordo sobre as reformas chegou a confirmação do fatídico limite do 3 por cento do défice público relativamente ao PIB. Respeitando esta relação Renzi poderá ter fé nas suas promessas?

“No final de Maio os oitenta euro prometidos na folha de salários existirão. . Não é aqui que bate o ponto. O ponto é que precisamente neste momento a Itália encontra-se já para além dos 3 por cento, como também o sublinhou Merkel”.

Renzi diz contudo que fechará o ano de 2014 com um défice de 2.8 por cento. Considera este valor como verosímil?

A aposta de Renzi – respeitar o rácio do défice e baixar as taxas – baseia-se evidentemente na possibilidade que o PIB aumente, que seja o denominador do rácio aumente fazendo descer o rácio.

É céptico uma vez mais?

Parece-me uma aposta corajosa. O efeito expansivo que Renzi previu obter com esta redução dos impostos será realmente modesto, e virá em parte atenuado pela diminuição da despesa pública. Quanto à spending review, todos consideram que pode ter um efeito contrário aos oitenta euros postos na folha de salários , sobretudo quando se corta nas despesas sensíveis, como por exemplo nos transportes públicos.

À propósito do spending review: o Palácio Chigi diz que o plano Cottarelli não é definitivo, mas Renzi confirma que quer tirar já sete mil milhões no ano de 2014. Cottarelli diz hoje que serão 5 mil milhões, mesmo a partir de Maio. Numa precedente audição tinha dito que “prudencialmente”, em meio ano, não poderia ser mais do 3 mil milhões. Quem tem razão?

“Para o ano de 2014 a redução da despesa será certamente menor relativamente ao que foi previsto por Renzi. É claro por conseguinte que estamos em frente de um buraco no orçamento. Assim, em certo sentido é o que deveríamos considerar. Até mesmo porque , mesmo ignorando os números, não existe um programa de revisão da despesa que seja credível para se realizar num semestre. A história ensina-nos que as revisões de despesa ordenadas em toda a velocidade se transformam em cortes lineares e brutais que atingem sempre as pessoas em mais dificuldade e não ajudam certamente o crescimento do PIB”.

Quer dizer que Renzi terá já previsto aumentar a dívida?

 “Para além das frases de circunstância típicas duma cimeira europeia, pode dar-se o caso que se pense num desvio de décimas. Penso em suma que na Europa já começaram as provas gerais para a anunciada mudança entre um pouco menos de austeridade e um pouco mais de reformas no mercado de trabalho. O problema, como disse, é que mesmo a nova doutrina “da precariedade expansiva” arrisca-se a mostrar como sendo mais um buraco na água “.

Se assim fosse, quais seria as implicações para a zona euro?

Por detrás da nova doutrina está a ideia que toda a zona euro se salva somente se os países periféricos, com brutais golpes de precariedade do trabalho, conseguem fazer descer os salários, os custos e os preços. Desta maneira dever-se-iam colmatar a diferença de competitividade em relação à Alemanha e dever-se-ia assim reequilibrar os rácios de crédito e de dívida pública no interior da União. A História contudo ensina-nos que em geral este mecanismo não funciona. Com efeito impõe somente aos países devedores o peso do reequilíbrio. Desta maneira toda a União Europeia será arrastada para uma corrida salarial à baixa que pode acabar numa deflação generalizada e numa nova crise da dívida. É a velha lição de Keynes mas que, ontem em Berlim, parecem ter-se esquecido.

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Ver:

http://temi.repubblica.it/micromega-online/brancaccio-%E2%80%9Cla-dottrina-della-precarieta-espansiva-e-la-nuova-illusione-europea%E2%80%9D/

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