
Valente Escócia.
Que mostrou valer muito mais que muitos e do que muitos diziam ela valer.
Que não aceitou o domínio como facto consumado e imposto do exterior e exigiu exercer o direito, democrático, de votar sobre a sua governação.
Não há liberdade, não há democracia, se um povo não pode decidir sobre o que respeita a sua independência.
Qualquer associação tem de ser uma escolha, não uma imposição, e tem, obviamente, sempre de poder ser alterada e, mesmo, reversível.
Valentes escocesas e escoceses que, malgré toda a campanha que procurou impedi-lo, exigiram o seu referendo.
Aqueles que não se cansaram de afirmar que, na sua “pequenez”, a Escócia não tinha condições para existir “só” (como lhes é difícil dizer a palavra “independente”) são os mesmos que gritaram aos quatro ventos o perigo e o descalabro que seriam, para os próprios e para os outros, uma vitória do “Sim” e uma Escócia independente (o desemprego, a perda de moeda e das poupanças, o fim das pensões, …; alguns chegaram a invocar que seria o fim não apenas do Reino Unido mas, também, do “projecto europeu”).
[Os europeístas, anti-independência, que diziam que a escolha da independência obrigaria à saída da Escócia, confrontar-se-ão, talvez, no futuro com a ironia da saída da União Europeia do Reino Unido arrastando consigo uma Escócia que pretendia ser mais um dos Estados membros.]
Tanta é afinal a força duma “pequena” Escócia independente, que podia derrubar a Grande Bretanha e (sacrilégio) espalhar o vírus independentista por essa Europa fora.
Muitas outras nações têm de agradecer-lhe ter reposto na discussão política a questão nacional e o inerente direito dos povos à autodeterminação.
Depois do referendo escocês, só o tique imperial e anti-democrático castelhano pode fundamentar a recusa do reino de Espanha de permitir uma consulta, livre, democrática das nações a que se impõe pela força.
Se estão assim tão convencidos que catalães, bascos, galegos são e querem continuar a ser “espanhóis” porquê negar-lhes o direito básico a uma consulta, a poderem responder à pergunta “Deve a ___ ser um Estado independente?”.
Porquê tanto medo de deixar as pessoas dizerem o que pensam e querem? Afinal onde está (pára) a sua democracia? São muito democratas e defensores de eleições e do voto popular, desde que apenas sobre o acessório e não sobre o que é essencial.
Na Escócia, a participação de cerca de 85% dos eleitores mostra como, afinal, as pessoas dão valor ao voto quando ele pode, de facto, valer para alguma coisa; quando votam em algo que lhes diz, realmente, respeito e não é apenas uma forma de outros se apropriarem da sua representação e legitimarem essa usurpação.
E é difícil pensar em algo mais importante que ter a palavra sobre a questão da independência.
Desta vez, no referendo escocês ganhou o “não” (por cinco pontos percentuais). Para isso, os poderes unionistas britânicos tiveram de ameaçar com o caos e de prometer à Escócia muita da autonomia que antes negavam – o centralismo não será igual. A derrota trouxe em si, também, algumas vitórias.
A campanha e mobilização dos escoceses pela independência mostrou, ainda, que com inteligência e criatividade há outras formas de acção directa, que são bem mais desafiadoras e incómodas para o “sistema” (que não a violência ou terrorismo dos que querem ver correr sangue; com esta sabem bem os poderes instituídos tratar).
Sim, obrigado, Escócia.

