A campanha esquenta. Os adversários de Marina Silva, ou seus “marketeiros” tentam a todo vapor “desconstruir” a imagem da ex-ministra do Meio Ambiente. Antigos admiradores e seguidores de quando ela recebeu 20 milhões de votos, se refugiam agora no medo e não na esperança, sem entender que a esperança, aquela “menininha de nada” do poeta Péguy, é a mesma de 2010, quando Leonardo Boff, um dos mais fervorosos “marineiros” de então, usava estas palavras: “ Numa nova fase da humanidade tudo vai mudar e para essa nova situação precisamos de alguém à altura desse desafio, que tenha a sensibilidade apurada pela natureza, pela Mãe Terra. E a única pessoa que está à altura da nova humanidade é Marina Silva”. Ora, a natureza continua a mesma, apenas um pouco mais ameaçada a cada dia, a Mãe Terra continua precisando de alguém à altura do grande desafio, e o Brasil continua a precisar de quem encarne realmente uma mudança, um novo projeto, um compromisso com princípios éticos, com seriedade, com uma luta verdadeira pela justiça, pelo crescimento sustentável, pelo respeito aos diferentes, e acima de tudo, pela educação e pela saúde de todos. Ninguém pode fazer milagre, mas é possível semear o futuro com novas sementes, nem que seja com melhores intenções e não as eleitoreiras de sempre, as que tudo prometem e nada cumprem. Leonardo Boff, que passou a apoiar o status quo e a reeleição de Dilma Roussef, usou nova metáfora: “Há quem defenda projetos bonitos falando de borboletas, mas se esquece de plantar as flores para que as borboletas venham”. E nos perguntamos: e se as sementes de Marina forem de flores maiores e mais belas? Já a filósofa Marilena Chauí disse que “não podemos ter o risco de uma aventura regressiva”. E nos perguntamos, então: como é que a aventura do novo pode ser regressiva? Para culminar, o ex- presidente Lula, num discurso exaltado, comparou Marina Silva com Jânio Quadros, com Fernando Collor de Mello – e com o italiano Silvio Berlusconi! Como diria Stanislaw Ponte Preta, um “samba do crioulo doido” ditado pelo desespero.
Mas Rosiska Darcy de Oliveira, no dia 13 de setembro, num belo artigo sobre as questões morais que a campanha de Marina levanta pelo fato dela ser evangélica, usou uma metáfora de Gandhi: “uma árvore que cai, faz muito barulho, uma floresta que germina não se escuta.” E a propósito do que a candidata do PSB dissera na sabatina do GLOBO: “ O mundo está mudando, existe um novo sujeito político que quer papel de autor”, Rosiska comentou: “Filha da floresta, talvez tenha ouvido essa germinação, o que explicaria a esperança que suscita.”
Quanto ao fato de Marina Silva ser evangélica, o que tem reascendido o preconceito dos católicos, todos parecem esquecer que o Brasil é um Estado laico, e que só a Igreja Católica mantém imagens e símbolos nos prédios públicos, o que não incomoda a ninguém. Como a própria Marina já lembrou, foi o protestantismo que propiciou e garantiu o Estado laico. E suas ideias particulares sobre a sacralidade do casamento religioso jamais a impediram de defender a união civil dos homossexuais, ou de combater a homofobia tanto quanto qualquer tipo de discriminação. Ela que vem da miséria, que não é branca, que já foi seringueira e empregada doméstica antes de se alfabetizar quase adulta, ela que num salto extraordinário e em dez anos formou-se em História e logo depois pós graduou-se em Psicanálise e Pedagogia, foi vítima e enfrentou preconceitos ao se candidatar a vereadora pela primeira vez em seu remoto Acre. Ela não discrimina ninguém.
E Marina Silva não aspira ao poder pelo poder. A única a apresentar rapidamente seu projeto, sua Proposta de Governo, foi logo criticada por ter corrigido detalhes do texto. Por isso foi acusada de “mudar de opinião”. Podemos então perguntar: onde estão as já perfeitas e imutáveis propostas dos outros candidatos? Por que não debatem ideias e programas ao invés de atacar os adversários? Ao responder a um ataque de Dilma Roussef, Marina disse: “Gostaria que ela apresentasse o seu programa e que não ficasse se escondendo atrás das fofocas. Vou continuar oferecendo a outra face.” E disse a um interlocutor, num comício para trabalhadores do ABC paulista: “Eles querem o embate, porque não têm o que dizer. (…) Estamos vendo o movimento da consciência que não se vende, não se troca, não se verga à mentira e ao boato.”
Quando se olha para a mulher franzina de voz aguda o que se vê e o que se ouve não é apenas o David contra Golias, é a ética contra o vale tudo, a elegância contra a virulência. E choca-nos a flagrante e injusta desvantagem dela, que tem apenas dois minutos de acesso à Televisão, contra os quase 12 de Dilma que conta também com a máquina poderosíssima do governo, com o ostensivo “apoio de prefeitos, vereadores, deputados, governadores, senadores, ministros, amigos e inimigos históricos”, ( Marina referia-se a Collor, Maluf etc. ), um verdadeiro “batalhão de Golias” ! E o que é mais grave: a campanha de Dilma conta, ou pensa contar com a mentira, o mesmo tipo de mentira utilizada por Fernando Collor que, segundo Marina, derrotou Lula em 1989.
Mas a ex-senadora e ex-ministra do meio-ambiente também sabe brincar e traz os personagens bíblicos para a floresta, chamando-os de “carapanã”, um mosquitinho insignificante, contra um forte e gordo “mangangá”, um grande besouro com perigoso ferrão! E da elegância da seringueira faz parte o reconhecimento das conquistas dos outros: a do plano real, de Fernando Henrique Cardoso e a do combate à fome nos governos de Lula e Dilma. E nessa linha lembro aqui uma figura pouco mencionada até mesmo por Marina: a de Ruth Cardoso, (1930-2008), mulher de Fernando Henrique, a verdadeira criadora do projeto que combateu a fragmentação dos planos oficiais de auxílio à população de baixa renda e promoveu a unificação de várias bolsas (bolsa-escola, bolsa-alimentação etc.) numa só, a famosa bolsa-família, que segundo Dilma, acabaria num possível governo da acreana que passou fome na infância e na adolescência, no possível governo da que se preocupa fundamentalmente com as vítimas do sistema capitalista, a “defensora da natureza e da humanidade”.
Permito-me citar minha própria Carta do Rio 14, logo após o trágico acidente que matou Eduardo Campos e levou Marina Silva a se apresentar como candidata: “haverá algo mais prioritário, mais progressista e mais urgente do que a salvação do planeta?” E concluo com outra pergunta: depois do escândalo da Petrobras e de todo o atraso de nosso país no que diz respeito à saúde, à educação, ao saneamento básico e à segurança, haverá algo mais urgente do que a renovação da política brasileira? Eu voto na Esperança.
No vídeo que se mostra em seguida, fica bem evidente a grande criatividade do nosso povo.