CARTA DO RIO – 160 por Rachel Gutiérrez

Começar esta Carta não é fácil quando os assuntos se mesclam e se atropelam vertiginosamente. Tivemos a condenação de um ex-presidente da República a 9 anos e meio de prisão por “corrupção passiva e lavagem de dinheiro”; assistimos às manobras espúrias (embora “legais”) do atual presidente, que desembolsou bilhões de reais dos cofres públicos para comprar os votos dos deputados da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, para que rejeitassem a denúncia por corrupção feita contra ele  pela Procuradoria Geral da República.

Lula, o ex-presidente condenado,  e réu em quatro outros processos, se diz indignado e se declarou candidato à Presidência em 2018, em ato político como sempre recheado de bravatas e provocações. Temer, o atual presidente que se sustenta  no poder por um fio, recorre a manipulações da velha política, transformando “o presidencialismo de coalizão numa forma inválida de presidencialismo de cooptação argentária”, como disse o ex-Ministro do Supremo Tribunal Carlos Ayres Britto, em programa de TV.

É lamentável e imperdoável que um governo (o de Temer), que começou com a intenção de conter gastos e recuperar a economia destruída pelos desastrosos governos de Dilma Rousseff, gaste agora cerca de 2 bilhões de reais para se manter no poder, no qual  também continua homiziando vários ministros corruptos indiciados pelo Ministério Público..  Como observou, com razão, o Senador Cristovam Buarque no último programa Roda Viva, da TV Cultura, “o erro foi termos feito o impeachment apenas de Dilma, tínhamos de ter deposto a chapa: Dilma e Temer”.

Ex- presidente e atual presidente: Lula e Temer. Lula está condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ; Temer foi denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela Procuradoria Geral da República.

Sobre a condenação de Lula, nossa brilhante escritora e acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira escreveu sábado:

Tivesse o episódio como protagonista, um funcionário público qualquer ou outro político corrupto, não teria a carga dramática que tem essa condenação. Acontece que por 40 anos Lula incendiou o imaginário do povo brasileiro e foi depositário das melhores esperanças de redenção de um país terrivelmente desigual, órfão de um “pai dos pobres”. Sobretudo os mais jovens que, com razão, vivem no futuro e se nutrem de utopias, e os mais pobres, a quem pouco resta senão fé e esperança, devotaram ao jovem imigrante nordestino que virou presidente uma admiração, confiança e fidelidade quase religiosas que, ainda hoje, resiste aos trancos da vida real e nega a nudez crua da verdade: o ídolo tinha pés de barro e sonhos de outro, de grandeza, poder e dinheiro. E nenhum escrúpulo.

Sobre os possíveis candidatos Marina Silva e ex-ministro do STF Joaquim Barboza, o filósofo Eduardo Gianetti disse que são ambos “exemplos eloquentes de pessoas desfavorecidas que abriram portas por meio da educação. É um sinal oposto ao de Lula, que sempre passou a mensagem de que, se você for esperto, não precisa se educar. Que basta saber driblar. Isso não foi bom para o país!”

Vale lembrar aqui a jornalista Eliane Brum que, num artigo de 2014 muito citado e comentado, fazia esta penetrante observação:

Lula e Marina são ambos filhos do Brasil, mas de Brasis bem diversos. E é exatamente por causa de diferenças fundamentais de visões de mundo que, a certa altura, Marina não encontrou mais lugar no projeto do “lulismo”, usando a expressão do cientista político André Singer. A explicação para que a inserção de milhões de brasileiros, no governo Lula, tenha se dado pela via do consumo, é complexa. Mas pelo menos uma parte dela pode ser encontrada no desejo de Lula. No que significa para um operário ascender na escala social. Casa melhorada, roupa boa, geladeira nova e cheia, TV de tela plana, um carro na garagem.

     Não vamos esquecer que alguns anos mais tarde, há alguns meses, Emílio Odebrecht, pai de Marcelo Odebrecht até hoje preso pelo conhecido escândalo do Petrolão, definiu o ex-presidente como um simples bon vivant !

 Já Marina Silva, que foi alfabetizada somente aos 16 anos, após ter trabalhado como empregada doméstica, formou-se em História aos 26 anos na Universidade Federal do Acre e, mais tarde, em Unversidades de Brasília, especializou-se em teoria psicanalítica e em psicopedagogia, que também estudou na Argentina. Não há dúvida de que suas visões de mundo se distanciaram e se acentuaram cada vez  mais.

Mas não só Lula e Marina se apresentam como candidatos à Presidência em 2018. Já falamos aqui no novo partido Podemos, que  postula a candidatura do senador Álvaro Dias. E há notícias de que tanto  Modesto Carvalhosa, eminente jurista, quanto o senador Cristovam Buarque pensam igualmente em se candidatar. Além desses, teremos possivelmente o governador e o prefeito de São Paulo: Geraldo Alckmin e João Dória, mais aquele que Cristovam Buarque não hesitou em qualificar como “uma excrescência política” – Jair Bolsonaro – nossa versão tupiniquim da fascista francesa Marine Le Pen. Na verdade, estamos precisando mesmo é de uma espécie de Emmanuel Macron, com todo o vigor transformador de um movimento En Marche!

Alguma renovação há de haver! Que o ministro Ayres Britto esteja certo ao dizer que “as Instituições vão começar a dar as cartas no país”, que a “Via Crucis reputacional chega ao fim” porque “é preciso mudar a Cara do Poder para reconciliar Poder e Pudor.” Mas o economista Alexandre Schwartzman advertiu (no mesmo programa de TV): “o mundo político não está sintonizado com o mundo econômico”, em cujo marasmo chapinhamos, por mais que o governo enfraquecido de Temer se esforce em propor  reformas. A crise é grave. E se arrasta.

E é calamitosa a situação da antiga “Cidade Maravilhosa.” Escreveu tristemente, no sábado, outro acadêmico, Zuenir Ventura:

E o nosso Rio de Janeiro, hein! Cada dia com sua agonia. De um lado, os bebês, que até eles são alvos de balas perdidas antes mesmo de nascer. (Referia-se a dois casos trágicos recentes). De outro, a notícia de que em média 15 turistas são assaltados diariamente. E para não dizer que não falamos de corrupção, o relatório do Tribunal de Contas do Município denunciando uma fraude de R$30 milhões na Saúde – um rombo que daria para pagar as despesas do Hospital Souza Aguiar, o maior da cidade, por um ano.

É por isso que o ministro Ayres Britto define os corruptos como genocidas.

Só respiramos aliviados ao pensar que existe a operação Lava Jato e que a partir do escândalo do Mensalão, * “o princípio republicano da igualdade alcançou a lei penal.”

Sim, a Operação Lava Jato completou três anos de investigações com 260 acusados criminalmente. Que sua sorte – e a nossa ! – seja melhor do que a das Mãos Limpas na Itália.

Oxalá!

*MENSALÃO foi o nome dado ao escândalo de corrupção política quando houve compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional, entre 2005 e 2006, durante o primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Foram protagonistas do episódio alguns integrantes do governo, membros do PT (Partido dos Trabalhadores), do PPS (Popular Socialista), PTB(Trabalhista Brasileiro), PR(República), PSB(Socialista), PRP(Republicano Progressista), PP(Progressista). A ação penal foi a de número 470, movida pelo Ministério Público no Supremo Tribunal Federal (STF).

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