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BISCATES – Estado de guerra – por Carlos de Matos Gomes

 

A propósito do que se passa há dezenas de anos no Médio Oriente até chegarmos às recentes degolações e à coligação aérea reunida pelos EUA contra os atuais terroristas.

  1. Algumas notas prévias:

O estado de guerra é o estado necessário para o actual modelo de sociedade mundial – o capitalismo globalizado – funcionar.

Na sua fase atual o capitalismo tem por base a especulação e esta assenta na gestão de expectativas.

As expectativas são jogadas nas bolsas – em Wall Street, em primeiro lugar. As compras e vendas, as transacções, dependem da aposta que é feita relativamente a uma dada situação.

A guerra é o mais poderoso influenciador de expectativas. Uma guerra numa zona vital como o Médio Oriente condiciona todas as expectativas.

Quem tiver capacidade para desencadear guerras, para as gerir, acelerar, travar, adormecer, acordar, dimensioná-las e, por fim, transmiti-las no mercado mundial da informação determina todo o sistema capitalista mundial. É ele que escolhe os números do jackpote recebe o prémio!

  1. Algumas notas de história:

O Médio Oriente é a caldeira da situação mundial, em particular desde os anos 70, da primeira guerra israelo-árabe e da queda do Xá da Pérsia. Sem preocupações cronológicas, apenas alguns tópicos:

Os regimes laicos e nacionalistas do Iraque, da Síria e do Egipto, saídos da nova geografia do poder pós IIGM, que que balançavam entre o movimento dos não alinhados e a URSS, tinham de ser eliminados entre outras razões porque pretendiam controlar nacionalmente os seus recursos e impor os preços para o seu petróleo, uma intolerável afronta aos que dominam a matéria prima sobre a qual assenta a nossa civilização e o sistema político mundial.

A primeira tentativa de resposta a essa afronta ocorreu com a guerra Irão-Iraque, para recolocar em Teerão um fiel dos EUA. Os americanos estiveram ao lado do Iraque de Saddam – até Portugal entrou no contrabando de armas no tal processo Irão-Contras de Oliver North. Depois, verificada a impossibilidade de inverter a situação do regime dos ayatolhahs, a estratégia foi desestabilizar todo o mundo árabe atribuindo a Israel a missão de aprofundar as suas divergências através dos ataques aos palestinianos, o que envolveu a Jordânia e o Líbano – daqui saíram o Hamas e o Hezbolah entre tantos movimentos. O assassinato de Sadate do Egito entra nos primórdios deste processo de desestabilização para manter o estado de guerra na região.

Após o final da guerra Irão-Iraque, o inimigo passou a ser o Iraque, primeira guerra, segunda guerra… Em pano de fundo sempre os palestinianos, como uma acendalha disponível para desencadear um incêndio no tempo conveniente. E grupos terroristas criados na região como frangos de aviário, à medida das necessidades. O Bin Laden foi o mais conhecido, formado para pressionar a URSS a partir do sul, com a guerra da Tchetchénia, mas tinha colegas espalhados por toda a região e uma imensa incubadora no Afeganistão,

  1. Algumas notas da atualidade

Recentemente, depois do Iraque desfeito, do Afeganistão já não ser necessário e poder voltar às mãos dos velhos senhores das guerras e do ópio, chegou a vez da Síria e, embrulhado no mesmo pacote com mais uma razia de Israel aos palestinianos de Gaza sempre à mão, surgiram “novos” movimentos terroristas que vão desde do Exército Sírio Livre, ao ISIS / Al Sham, califado, Estado islâmico, Al Nusrah,os atuais combatentes da liberdade e degoladores, herdeiros da Alqaeda.

Estas guerras não surgiram ao acaso das areias da Arábia e da Mesopotâmia por, de repente, sunitas e xiitas terem descoberto que não podem conviver, de só haver um Allah que tem mais Kalashnikoves e explosivos do que virgens disponíveis para tantos fiéis. A fé e o fanatismo religioso são apenas pretextos. Há um plano por detrás dos seguidores do Maomé, do cunhado Ali, do Imã encoberto, e dessas pequenas histórias de que são feitas as grandes religiões e devastações. Há quem forme, treine, arme, financie e incentive estes grupos terroristas e estes exércitos. Há uma estratégia. Como dizia alguém: os maus não nasceram maus, alguém os fez assim, os reuniu e lhes paga! Há um Dante que fez este inferno e contratou estes demónios!

  1. Algumas notas de realidade

A guerra contínua do Médio Oriente, com Israel e estes e outros bandos a manterem há décadas aceso o fogo da desestabilização, funciona como uma turbina que serve para controlar os preços do petróleo, para manter o dólar como moeda de troca universal, logo serve para alimentar a dívida eterna dos EUA, os emissores do papel verde. Serve para promover o complexo militar industrial, justificar os impostos dos americanos para essa área (o patriotismo dos bons americanos), que por sua vez mantêm os EUA na vanguarda da tecnologia que lhes assegura o poder de impor os preços das matérias primas estratégicas e o monopólio da sua moeda. Serve, em última instância, para manter o nosso tipo de civilização.

Para o bom funcionamento do capitalismo global o Médio Oriente tem de estar inflamado em permanência. Cada administração americana – independentemente do ocupante da Casa Branca – aumenta ou diminui a inflamação de acordo com os interesses do momento – os interesses dos banqueiros de Wall Street e dos patrões do complexo militar industrial.

Os chamados movimentos islâmicos radicais são as alavancas com que os interesses conjugados nos postos de comando do Pentágono, da Secretaria de Estado, do Congresso, ou da Reserva Federal, os governos da região, de Israel, da Arábia Saudita, do Quatar, da Turquia pilotam a situação do Médio Oriente, com que agudizam a inflamação ou a arrefecem. Os drones conduzidos à distância são, metaforicamente, os vírus que produzem esse efeito. O presidente dos EUA é apenas o fornecedor do enxame de predadores. A sua função resume-se a abrir portas ao vespeiro.

Todas as pessoas bem formadas se horrorizam com as imagens de vítimas indefesas a serem degoladas. É exactamente esse efeito de horror que quem está aos comandos da caldeira do Médio Oriente, os especuladores das grandes bolsas, os grandes banqueiros, os CEO das grandes empresas de equipamentos de alta tecnologia pretendem obter.

É o estado de guerra no Médio Oriente que sustenta o mundo tal qual existe. Haverá, há sempre, umas almas cândidas que gritarão que isto que aqui afirmo é antiamericanismo primário. Abençoados, porque vivem felizes, acreditando que desta vez é que é, que desta vez os drones e santa aliança EUA, Arábia Saudita e Israel vão decapitar o islão radical. Realismo é entender que apenas vai recomeçar um ciclo, que terminará para o radical “califa” Abu Bakr al-Baghdadi como acabou Bin Laden, que será substituído como ele substituiu o saudita.

Realismo ou antiamericanismo são qualificativos absolutamente inúteis. Ao longo da história os impérios agiram sempre como os sapos: vão engolindo o fumo do poder até rebentarem. É a lógica do negócio. Quanto ao comportamento dos povos, mesmo que todos acreditássemos que vamos acabar assim, nunca votaríamos para alterar este comportamento. Seremos sempre como passageiros do Titanic: a música toca, o navio segue até bater no iceberg e afundar-se.

Nós, os ocidentais, estamos todos no Titanic – num império de onde não podemos sair. Salvar-se-ão apenas os que conseguirem comer as próprias entranhas e entrarem no negócio do futuro: robotizaçãoda guerra e domínio de energias alternativas. Entretanto os drones e os F16, principalmente aquele que apareceu nas TVs, pilotado por uma bela princesa árabe, obrigarão as atuais matilhas a recolher aos covis até se tornarem de novo necessárias e mais alguns inocentes serão degolados.

  1. Algumas notas finais

A propósito de negócio e dos seus ciclos, Obama deu na semana passada na ONU uma boa notícia a Wall Street: a guerra contra os degoladores do Médio Oriente vai ser longa. Bons negócios em perspectiva, com uma guerra de alta tecnologia, de capital intensivo. Excelente para a especulação financeira, agora que o programa espacial está adormecido. É a guerra na Síria que Obama passará ao seu sucessor, como ele recebeu a do Iraque e a do Afeganistão. É como no filme E la nave va, de Fellini, a viagem é um tipo de funeral, com o objetivo de dispersar as cinzas de um morto, só que são as nossas e não as de uma cantora lírica.

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