BISCATES – O novo médio oriente, caos construtivo e destruição criativa – por Carlos de Matos Gomes

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Hollande declarou guerra ao terrorismo! Vai morder o próprio rabo? É que este terrorismo que o atacou em Paris é um dos frutos da guerra que alguns dos aliados da França, e que ela acolitou na medida das suas possibilidades, desencadearam no Médio Oriente.

O terrorismo de hoje resulta do jogo de afirmação do poder dos Estados Unidos como a única superpotência mundial que se desenrolou a partir do colapso da União Soviética. O 11 de Setembro de 2001 forneceu o pretexto para a execução dos planos da guerra e dos terrorismos adjacentes que já estavam decididos pela administração republicana dos Estados Unidos e pelo complexo militar industrial muito antes.

A revelação é antiga e muito difundida. Foi feita pelo general Wesley Clark, antigo comandante supremo aliado na Europa, SACEUR, numa entrevista em 2007, onde relatou à jornalista Amy Goodman a conversa com um dos seus camaradas numa visita que fez ao Pentágono dez dias após o derrube das Torres Gémeas. Donald Rumsfeld, Secretário de Estado da Defesa, tinha transmitido ao Estado-maior Conjunto das forças armadas americanas a decisão da administração Bush atacar o Iraque. Clark perguntou ao seu camarada se haviam encontrado alguma ligação entre Saddam e a al-Qaeda?” Resposta: “Não há nada. Foi-nos simplesmente transmitida a decisão…”

Semanas mais tarde Clark voltou ao Pentágono e perguntou ao mesmo camarada se ainda se mantinha o plano da guerra contra o Iraque. Resposta: “É pior do que isso. Veio de cima (novamente de Rumsfeld) um memorando que descreve como destruir sete países em cinco anos começando pelo Iraque, de seguida, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão, terminando no Irão.

A entrevista em: http://www.globalresearch.ca/we-re-going-to-take-out-7-countries-in-5-years-iraq-syria-lebanon-libya-somalia-sudan-iran/5166.

O objectivo era redesenhar um «Novo Médio Oriente», um termo introduzido em dezembro de 2006, em Tel Aviv, por Condoleezza Rice, Secretária de Estado da administração Bush Jr., de que Rumsfeld fazia parte, durante uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro ministro israelita Olmert, no final do devastador ataque Israel ao Líbano como represália pela prisão de dois espiões pelo Hezbolah (Operação Justa Recompensa/II Guerra do Líbano em que morreram 1200 libaneses, a maioria civis e 900.000 tinham ficado com as habitações destruídas.)

Ao manifestar o seu apoio à acção de Israel, Condoleezza Rice afirmou: “O que estamos a ver com o ataque de Israel ao Líbano é o nascimento – as dores de parto – de um ‘New Middle East.’”

As palavras confirmavam o plano que vinha a ser desenvolvido ao longo dos anos para criar um arco de instabilidade, caos, e violência que incluía o Líbano, a Palestina, a Síria e o Iraque, o golfo pérsico, o Irão até às fronteiras do Afeganistão. Os movimentos terroristas (então combatentes da liberdade/ islâmicos moderados) eram as flechas desse arco. Sabemos hoje.

O antigo conselheiro nacional de segurança dos EEUU, Zbigniew Brzezinski, descreveu em «O grande xadrez: supremacia americana e imperativos estratégicos» o conceito do Novo Médio Oriente: uma vasta região a que chamou Balcãs Euroasiáticos, que inclui a Geórgia, o Azerbaijão, a Arménia, a Asia Central, o Afeganistão, o Irão e a Turquia e toda a área nas fronteiras entre a Europa e a antiga União Soviética. A Al Qaeda nasceu nesta conjuntura. O grande espaço transformado em palco de permanentes conflitos seria a «alavanca de controlo» (control lever) para não permitir o renascimento da Rússia como grande potência.

A estratégia pode ser lida em: http://www.globalresearch.ca/plans-for-redrawing-the-middle-east-the-project-for-a-new-middle-east/3882

Os responsáveis políticos chamaram «caos construtivo» à violência por si gerada na região. Um professor de História da Universidade da Califórnia cunhou uma nova designação ao escrever: «os neo-liberais e os neo-conservadores da administração Bush escolheram a “destruição criativa” como meio para conseguirem o que chamam nova ordem mundial».

A estratégia americana de desestabilização foi concertada com a Grã-Bretanha e Israel. Tem três finalidades:

– evidenciar a supremacia mundial dos Estados Unidos, mantendo a Rússia sob pressão e não permitindo a afirmação da Europa como grande ator internacional;

– assegurar o controlo de uma região decisiva na produção de petróleo, na sua distribuição  e  na formação dos preços dos combustíveis;

– financiar o complexo militar industrial que fornece os meios para o domínio militar e político a nível mundial.

A desestabilização desta região que vai dos Balcãs Euroasiáticos à Tunísia e à Líbia teve o ensaio geral com a guerra dos Balcãs e entrou na fase decisiva com a invasão do Iraque. Incluiu posteriormente as chamadas “primaveras árabes”, as “revoluções” de veludo na Checoslováquia, ou de laranja na Ucrânia, a formação do ISIS, as intervenções na Líbia e, por fim, na Síria.

A estratégia de «destruição criativa» ou de «caos construtivo» para implantar o Novo Médio Oriente da globalização foi um sucesso até à sublevação telecomandada da Praça Maidan, em Kiev (dezembro 2013), que fez a Rússia gritar: Alto!

Após fazer da Ucrânia um problema ocidental, a Rússia marcou o seu terreno ao ocupar a Crimeia e o Leste do país. Ao instalar-se militarmente na Síria, está a colocar em causa o resultado que os Estados Unidos e aliados julgavam garantido no grande jogo.

As repugnantes cenas de matança de reféns e as destruições de património mundial exigiram uma resposta que os Estados Unidos e os seus aliados não podiam dar, porque ficariam sem os peões no terreno. A solução americana foi fazer de conta que «ia a eles» com drones, quando o seu objectivo era substituir Assad por um fiel. Israel nem disfarçou: continuou a atacar os sírios que lutavam nos Montes Golan contra o ISIS. Do outro lado, a Turquia atacava os curdos que combatiam o Estado Islâmico e servia de entreposto ao tráfico de petróleo e aos jiadistas europeus.

Ao atacar os alvos duros do ISIS, a Rússia expôs a hipocrisia dos Estados Unidos e a teia de cumplicidades em que assentava a estratégia anglo-americana-israelita de caos construtivo e as ligações aos grupos terroristas, nomeadamente através da Turquia e da Arábia Saudita.

Ameaçados pelos terroristas, centenas de milhares de pessoas procuraram refúgio na Europa.

Acossadas pelos russos, as marionetas que exercem o terrorismo na Síria e no Iraque retaliaram na barriga mole da Europa continental. Em Paris, há pouco.

Os resultados da estratégia americana e britânica desenhada por Bush e Blair, com Israel, a Turquia e a Arábia Saudita como seus agentes locais, foram uma multidão de refugiados sem precedentes, terrorismo nos santuários civilizacionais da Europa, uma União Europeia prestes a desfazer-se, impotente para lidar com os problemas que lhe criaram e a emergência da Rússia como a grande potência europeia. Chapeau!

O pequeno Hollande vai partir em guerra contra quem? É que, de acordo com um artigo de Oliver Roy no The New York Times, o Estado Islâmico não é o principal inimigo de nenhum ator político. Nem do regime de el Assad, nem de Putin, que combatem igualmente outros grupos rebeldes; nem do turco Erdogan, concentrado na luta contra os curdos; nem dos curdos, que se movem dentro das suas fronteiras étnicas; muito menos dos sauditas; nem de Bibi Netanyahu de Israel, que até agradece que os grupos islâmicos combatam entre si; nem da administração americana herdeira dos que o criaram como instrumento para atingir os objectivos permanentes dos Estados Unidos.

A luta contra o Estado Islâmico é uma questão civilizacional. A política é uma questão de interesses.

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