CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – AI, TIMOR! AI, JUSTIÇA! logo seguida de HAJA DECORO, SENHORES BISPOS! -por Mário de Oliveira
carlosloures
AI, TIMOR! AI, JUSTIÇA!
Quando dois ou mais poderes se guerreiam, quem se lixa são as respectivas populações dominadas por eles. No concreto caso, as populações de Timor-Leste. Sem que ninguém pareça disposto a ouvir os gemidos do seu martirizado povo. Hoje, já ninguém volta a cantar, com lágrimas, Ai, Timor! Ai, Justiça! As relações de cooperação entre os dois países, na área da Justiça, pareciam correr sobre rodas. Pelos vistos, não corriam. Sabe-se agora. O mal-estar, suportado em surdina, acaba de rebentar. O Governo de Timor, ainda sob a tutela do antigo colonizador, e não se sabe por quanto tempo mais, decide dar um prazo de 48 horas para um conjunto de magistrados portugueses deixarem o país, ainda à procura do seu próprio caminho e da sua própria identidade. Um objectivo difícil de alcançar, nestes tempos de globalização da injustiça, do saque institucional e multinacional, do nivelamento por baixo da qualidade de vida, da agressiva afirmação dos valores da Bolsa sobre os valores humanos, em que o petróleo que nos faz correr e ao planeta para a morte antes de tempo, continua a ser o rei ou o cristo das energias. Odiamos tanto a vida, na sua plenitude, que arranjamos mil e um motivos, mil e uma justificações para impedir que ela se desenvolva de dentro para fora em cada povo. A ordem de Xanana Gusmão que, outrora, foi idolatrado e quase mitificado, é vista pelo antigo colonizador como disparatada. Não tolera ver-se ao espelho dos povos que colonizou e tratou como bestas de carga. Não lhes perdoa que eles adquiram voz e vez. Menos ainda, que, em lugar de o bajular e dobrar a espinha, façam com ele o que ele, durante sucessivas gerações, fez com eles. Por enquanto, os magistrados expulsos de Timor continuam sem falar. A respectiva corporação será incapaz de reagir com equidade e isenção. A Justiça sai sempre a perder, quando é o poder político e o poder do dinheiro a exercê-la. Neste confronto, o poder mais forte é o do antigo colonizador. Temo, por isso, e muito, pelo próximo futuro de Timor. A sonhada independência está longe de ser uma realidade. Ai, Timor! Ai, Justiça!
7 Novº 2014
HAJA DECORO, SENHORES BISPOS!
As dioceses católicas começam amanhã a Semana dos Seminários. A iniciativa é cíclica, como as estações do ano. Fora das rotinas, dioceses e paróquias ficam sempre aos papéis. Criatividade, inovação, não é com elas. Podem mudar a linguagem, não a qualidade do agir. Os clérigos são funcionários de Missal para as missas e de Rituais para sacramentos e funerais. Detestam o novo. Odeiam quem o protagonize. Aos não-bispos, são-lhes confiadas umas quantas empresas, chamadas paróquias. Cabe-lhes o exclusivo da gestão. Mil euro a mim, cem euro à diocese. Há os mais escrupulosos – neste universo clerical, há sempre alguns mais escrupulosos que se imaginam cercados de olhos que os vigiam, até os pensamentos – e, então, fazem chegar à empresa-mãe uma parte substantiva dos lucros, ainda muitos, por sinal, que as populações podem dizer-se não-praticantes, mas no tocante aos direitos a pagar aos párocos, não falham. Temem que o seu deus, o Dinheiro, omnisciente e vingativo, as castigue. Enquanto houver dinheiro a entrar, as rotinas eclesiásticas mantêm-se. Ora, dizem as rotinas que amanhã começa a Semana dos Seminários. A realidade bem grita que os velhos e enormes seminários tridentinos estão hoje povoados de fantasmas – as novas gerações, felizmente, já são pós-cristãs – mas os bispos diocesanos continuam a repetir os seus chavões de sempre, concretamente, “É no coração do bispo que nascem os seminários”; e, “Os seminários são o coração da diocese”. Só que a sociedade mudou. Escolas e universidades são hoje mais que muitas. Os jovens não estão mais condenados a ter de entrar no seminário, para conseguirem estudar. E, por opção pessoal, que jovens século XXI, de mentes-consciências sadias, aceitam reduzir a sua vida a clérigo celibatário, obrigado a recorrer a Missal de missas, a 10€ cada “alma”, e a Rituais para sacramentos faz-de-conta? Haja decoro, senhores bispos! Nasçam do Vento, da mesma Ruah de Jesus Nazaré e pratiquem a sua mesma Fé. Ou demitam-se!