CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – AI, TIMOR! AI, JUSTIÇA! – por Mário de Oliveira

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Quando dois ou mais poderes se guerreiam, quem se lixa são as respectivas populações dominadas por eles. No concreto caso, as populações de Timor-Leste. Sem que ninguém pareça disposto a ouvir os gemidos do seu martirizado povo. Hoje, já ninguém volta a cantar, com lágrimas, Ai, Timor! Ai, Justiça! As relações de cooperação entre os dois países, na área da Justiça, pareciam correr sobre rodas. Pelos vistos, não corriam. Sabe-se agora. O mal-estar, suportado em surdina, acaba de rebentar. O Governo de Timor, ainda sob a tutela do antigo colonizador, e não se sabe por quanto tempo mais, decide dar um prazo de 48 horas para um conjunto de magistrados portugueses deixarem o país, ainda à procura do seu próprio caminho e da sua própria identidade. Um objectivo difícil de alcançar, nestes tempos de globalização da injustiça, do saque institucional e multinacional, do nivelamento por baixo da qualidade de vida, da agressiva afirmação dos valores da Bolsa sobre os valores humanos, em que o petróleo que nos faz correr e ao planeta para a morte antes de tempo, continua a ser o rei ou o cristo das energias. Odiamos tanto a vida, na sua plenitude, que arranjamos mil e um motivos, mil e uma justificações para impedir que ela se desenvolva de dentro para fora em cada povo. A ordem de Xanana Gusmão que, outrora, foi idolatrado e quase mitificado, é vista pelo antigo colonizador como disparatada. Não tolera ver-se ao espelho dos povos que colonizou e tratou como bestas de carga. Não lhes perdoa que eles adquiram voz e vez. Menos ainda, que, em lugar de o bajular e dobrar a espinha, façam com ele o que ele, durante sucessivas gerações, fez com eles. Por enquanto, os magistrados expulsos de Timor continuam sem falar. A respectiva corporação será incapaz de reagir com equidade e isenção. A Justiça sai sempre a perder, quando é o poder político e o poder do dinheiro a exercê-la. Neste confronto, o poder mais forte é o do antigo colonizador. Temo, por isso, e muito, pelo próximo futuro de Timor. A sonhada independência está longe de ser uma realidade. Ai, Timor! Ai, Justiça!

7 Novº 2014

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