Quando dois ou mais poderes se guerreiam, quem se lixa são as respectivas populações dominadas por eles. No concreto caso, as populações de Timor-Leste. Sem que ninguém pareça disposto a ouvir os gemidos do seu martirizado povo. Hoje, já ninguém volta a cantar, com lágrimas, Ai, Timor! Ai, Justiça! As relações de cooperação entre os dois países, na área da Justiça, pareciam correr sobre rodas. Pelos vistos, não corriam. Sabe-se agora. O mal-estar, suportado em surdina, acaba de rebentar. O Governo de Timor, ainda sob a tutela do antigo colonizador, e não se sabe por quanto tempo mais, decide dar um prazo de 48 horas para um conjunto de magistrados portugueses deixarem o país, ainda à procura do seu próprio caminho e da sua própria identidade. Um objectivo difícil de alcançar, nestes tempos de globalização da injustiça, do saque institucional e multinacional, do nivelamento por baixo da qualidade de vida, da agressiva afirmação dos valores da Bolsa sobre os valores humanos, em que o petróleo que nos faz correr e ao planeta para a morte antes de tempo, continua a ser o rei ou o cristo das energias. Odiamos tanto a vida, na sua plenitude, que arranjamos mil e um motivos, mil e uma justificações para impedir que ela se desenvolva de dentro para fora em cada povo. A ordem de Xanana Gusmão que, outrora, foi idolatrado e quase mitificado, é vista pelo antigo colonizador como disparatada. Não tolera ver-se ao espelho dos povos que colonizou e tratou como bestas de carga. Não lhes perdoa que eles adquiram voz e vez. Menos ainda, que, em lugar de o bajular e dobrar a espinha, façam com ele o que ele, durante sucessivas gerações, fez com eles. Por enquanto, os magistrados expulsos de Timor continuam sem falar. A respectiva corporação será incapaz de reagir com equidade e isenção. A Justiça sai sempre a perder, quando é o poder político e o poder do dinheiro a exercê-la. Neste confronto, o poder mais forte é o do antigo colonizador. Temo, por isso, e muito, pelo próximo futuro de Timor. A sonhada independência está longe de ser uma realidade. Ai, Timor! Ai, Justiça!
7 Novº 2014
HAJA DECORO, SENHORES BISPOS!
As dioceses católicas começam amanhã a Semana dos Seminários. A iniciativa é cíclica, como as estações do ano. Fora das rotinas, dioceses e paróquias ficam sempre aos papéis. Criatividade, inovação, não é com elas. Podem mudar a linguagem, não a qualidade do agir. Os clérigos são funcionários de Missal para as missas e de Rituais para sacramentos e funerais. Detestam o novo. Odeiam quem o protagonize. Aos não-bispos, são-lhes confiadas umas quantas empresas, chamadas paróquias. Cabe-lhes o exclusivo da gestão. Mil euro a mim, cem euro à diocese. Há os mais escrupulosos – neste universo clerical, há sempre alguns mais escrupulosos que se imaginam cercados de olhos que os vigiam, até os pensamentos – e, então, fazem chegar à empresa-mãe uma parte substantiva dos lucros, ainda muitos, por sinal, que as populações podem dizer-se não-praticantes, mas no tocante aos direitos a pagar aos párocos, não falham. Temem que o seu deus, o Dinheiro, omnisciente e vingativo, as castigue. Enquanto houver dinheiro a entrar, as rotinas eclesiásticas mantêm-se. Ora, dizem as rotinas que amanhã começa a Semana dos Seminários. A realidade bem grita que os velhos e enormes seminários tridentinos estão hoje povoados de fantasmas – as novas gerações, felizmente, já são pós-cristãs – mas os bispos diocesanos continuam a repetir os seus chavões de sempre, concretamente, “É no coração do bispo que nascem os seminários”; e, “Os seminários são o coração da diocese”. Só que a sociedade mudou. Escolas e universidades são hoje mais que muitas. Os jovens não estão mais condenados a ter de entrar no seminário, para conseguirem estudar. E, por opção pessoal, que jovens século XXI, de mentes-consciências sadias, aceitam reduzir a sua vida a clérigo celibatário, obrigado a recorrer a Missal de missas, a 10€ cada “alma”, e a Rituais para sacramentos faz-de-conta? Haja decoro, senhores bispos! Nasçam do Vento, da mesma Ruah de Jesus Nazaré e pratiquem a sua mesma Fé. Ou demitam-se!