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Carta do Rio – 24 – por Rachel Gutiérrez

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Charles Baudelaire disse que o gênio nada mais é do que a infância reencontrada voluntariamente. Para um poeta herdeiro do romantismo, o conceito de infância era ainda relativamente novo, pois só se começou a falar em infância, como um período especial do desenvolvimento humano, a partir de meados do século XVIII. Antes, as crianças eram consideradas como adultos em miniatura ou seres inacabados. Após a “descoberta” da infância, passamos a atribuir a essa fase de crescimento características um tanto idealizadas ou romantizadas, bastante próximas da experiência, porém. Não percebemos que as crianças vivem num tempo sem tempo, num presente contínuo e “eterno”? Não é verdade que o brinquedo e a fantasia são o que há de mais sério para uma criança? Não é também verdade que nos maravilhamos com as tiradas poéticas e não raro filosóficas das crianças? Circula na internet um post com definições extraídas do Dicionário de Humor Infantil, de Pedro Bloch, expressões que encantam e comovem:

“- Cobra é um bicho que só tem rabo.

 – Relâmpago é um barulho rabiscando o céu.

 – Calcanhar é o queixo do pé.

– Vento é um ar com pressa.

–  Sono é saudade de dormir.

– Deserto é uma floresta sem árvores.

– Esperança é um pedaço da gente que sabe que vai dar certo.”

A infância é, pois, um período de descoberta, de fabulação, quando a imaginação e a criatividade roçam o infinito, fase preciosa de encantamento com o que o mundo tem de mágico. Ora, existem também crianças, como já mencionamos, massacradas pelas guerras, pela miséria, pelos abusos e maus-tratos, existem crianças sacrificadas pelo trabalho escravo, crianças abandonadas, famintas, contaminadas pelas piores doenças e pelas drogas, existem crianças prostituídas, violentadas e assassinadas neste mundo sem magia, neste nosso mundo da injustiça e do desrespeito pela vida.

Mas há um outro massacre não tão trágico, igualmente cruel, que também choca e preocupa. Vi outro dia, num salão de beleza, um tratamento a que estava sendo submetida uma menina de no máximo nove anos de idade. Fizeram-lhe um penteado bastante jovem, sim, um rabo-de-cavalo, mas puseram-lhe tanto laquê nos cabelos que não havia um fio fora de lugar; suas pequenas unhas estavam laqueadas por um esmalte rosa claro e suas mãos mantinham os dedos abertos, rijos, imóveis; e para meu espanto, fizeram-lhe uma maquiagem completa, com sobrancelhas pintadas com lápis, olhos também pintados e com rímel nas pestanas, rouge ou blush nas maçãs do rosto, e nos lábios, um batom rosa brilhante. E a menina parecia uma anãzinha, uma mulher em miniatura, uma pequena vedete, para não dizer pior.

Como podemos classificar uma coisa dessas? – Ah, agora é moda! Todas querem fazer assim…dirão. Ou será que por uma estranha inversão de valores, pais e mães querem hoje em dia eliminar a distância entre a infância e a idade adulta? Em primeiro lugar, para não envelhecer! Para não serem autoritários, os pais exageram no companheirismo com os filhos, e permanecem “garotões” até quarenta ou cinquenta anos; as mães competem com as filhas e querem parecer suas irmãs, e só se comportam como mães quando chegam a avós. E os filhos perdem os parâmetros, as referências, a orientação.

Que é um adulto, afinal? Os mais velhos deveriam proteger, amparar, acolher com carinho e orientar os mais novos. Sem tolhê-los, nem cerceá-los, é claro. Não ser autoritário não implica necessariamente em perder a autoridade. Os adultos precisam recuperar ou reconstruir uma certa ascendência sobre as crianças e sobre os jovens sob pena de não lhes merecerem o respeito, que é, afinal, uma relação de reciprocidade. Se não respeitamos a fragilidade e a integridade da criança, suas carências e as idiossincrasias de sua idade, como vamos ajudá-la, ampará-la, orientá-la?

Diante de tantos adolescentes desajustados e violentos, que brigam entre si e agridem pais e professores, não seria bom que começássemos a pensar na infância para melhor assisti-la e acompanhá-la na invenção de seu futuro?

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