CARTA DO RIO – 116 por Rachel Gutiérrez

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Crianças do Mundo, perdoai-nos!

Nos últimos dias, os âncoras de todas as TVs e as manchetes dos principais jornais veicularam a denúncia da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre a trágica situação de 50 milhões de crianças cujo futuro a humanidade, em sua ignorância ou indiferença, está ajudando a assassinar. Dessas, 28 milhões são refugiadas ou fugitivas de seus países em conflitos intermináveis e devastadores.

Já em junho deste ano, um relatório da Unicef previa a morte provável (de causas que poderiam ser evitadas) de  69 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade. “167 milhões viverão na pobreza e 750 milhões de mulheres terão se casado ainda crianças até 2030, data limite para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”

Eu me pergunto, pensando apenas nas crianças massacradas pela guerra na Síria, como é que pode dormir um presidente chamado Bashar AL Assad? Cidades destruídas, civis assassinados, a terra devastada, nada disso é mais importante do que a sua prepotência, sua insistência em permanecer no poder negando-se a qualquer tipo de negociação. Como é que dorme esse homem?

Lá, como em todas as guerras, as crianças são as que mais sofrem. E parece que ninguém se conscientiza de que é crime hediondo roubar-lhes a infância, os sonhos, a esperança. É crime hediondo negar-lhes o futuro. Que mundo é este? Que pessoas compõem as sociedades que continuam cegas, indiferentes ao que acontece, a tudo isso de que se tem notícia em segundos, graças às mais sofisticadas tecnologias. E para que servem as mais sofisticadas tecnologias se jogamos no inferno 50 milhões de crianças? Para que servem as máquinas, os robôs, os drones e todas as geniais invenções dos homens se não nos ajudam a salvar uma sequer dessas milhões de crianças sem destino?

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Vi outro dia um documentário sobre uma feira tecnológica, onde, entre fascinantes demonstrações, eram exibidos os últimos tipos de geladeiras, que são ao mesmo tempo computadores com sistemas programados capazes de gerir automaticamente as copas e as cozinhas das casas dos ricos, e que estarão à venda ( para eles)  muito em breve.

Neste mesmo mundo, nestes nossos mesmos tempos, continua a aumentar o número de crianças que não têm sequer o que comer, ou onde dormir, que não têm roupas, sapatos, nem casas, nem escolas. Sua única experiência é a do medo, da insegurança total, do terror de um pesadelo interminável do qual talvez jamais possam despertar.

Dizia o relatório de junho, citando Anthony Lake, diretor executivo da Unicef : “Negar a centenas de milhões de crianças oportunidades justas na vida faz mais do que ameaçar seu futuro, alimentando ciclos intergeracionais de desvantagem: coloca também em perigo o futuro de suas sociedades”.

E o documento menciona, é claro, a importância da educação, sobre o “quanto a educação pode ser decisiva para melhorar a vida das crianças: quanto maior o grau de instrução da mãe, menores são as chances de morte antes dos cinco anos; em média, para cada ano adicional de educação que uma criança recebe aumenta sua renda, quando adulta, em cerca de 10%; e, em média, para cada ano adicional de escolaridade concluído por jovens adultos em um país, as taxas de pobreza nesse país caem 9%.” Podemos, então, perguntar: de que adiantam essas estatísticas se milhares de crianças não terão acesso  à escola, e se centenas delas podem morrer afogadas ao tentar fugir de seus países?

E as mães, muitas vezes meninas-mães, são também vítimas de injustiças legitimadas por falsas interpretações das tradições culturais ou religiosas. Oprimidas, subjugadas, alijadas das escolas, que recursos possuem as mães para ajudar ou salvar seus filhos? Como, sendo elas mesmas tão frágeis e sofridas, poderão protegê-los e orientá-los se, como disse o grande psicanalista inglês Donald Winnicott, “o precursor do espelho é o rosto da mãe”?

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Foto de Alfred Einsenstaedt.

O quadro é absolutamente aterrador. E é preciso lembrar que além das fugitivas das guerras, além daquelas trágicas crianças da Síria, da Turquia e do Afeganistão, existem crianças maltratadas, exploradas, aviltadas, milhares de crianças que sofrem abuso e violência em todas as partes do mundo.

E como observou um amigo de grande inteligência e sensibilidade, a violência que sofrem no mundo as crianças é, indiretamente, uma violência contra as mulheres. Como sabemos, tem recrudescido, de forma brutal, a violência contra as mulheres a tal ponto que, no Brasil, foi preciso sancionar uma lei que classifica o feminicídio como crime hediondo. Aqui, nos últimos dez anos, o número de mulheres assassinadas passou de 3.937 para 4.762! E um em cada três desses crimes foi cometido por ex ou atual companheiro. Aqui, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos e 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram espancamentos e maus tratos  em seus relacionamentos.

E na área do trabalho, até quando as mulheres continuarão a receber menos por tarefas iguais?  E até quando a exploração do trabalho escravo infantil será ignorada?

Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – revela que no Brasil, 5,5milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham, e mais de 5 milhões não frequentam as salas de aula por causa do trabalho.

Crianças do Brasil, perdoai-nos!

Crianças do Mundo, perdoai-nos!

A infância, cujo conceito remonta apenas ao século XIX e sobre a qual estudos especializados só apareceram a partir da década de 1960 do século passado, é, segundo os psicólogos,  e como costumamos comprovar, uma fase decisiva das nossas vidas. Portanto, é com imensa tristeza e com um devastador sentimento de impotência que recebemos as alarmantes denúncias da UNICEF. Que será do mundo, que será de nós se tantas crianças continuarem na trágica situação em que se encontram?

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