CARTA DO RIO 83 por Rachel Gutiérrez

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(Nota: Na impossibilidade de a nossa colaboradora hoje nos enviar o seu texto – ficamos à espera que a viagem seja inspiração para futuras “Cartas” – voltamos a publicar um texto de há cerca de um ano, escolhido pela proximidade festiva.)

É difícil saber em que momento das nossas vidas a ideia do Natal passou a ser sinônimo de nostalgia, de saudade da infância ou do tempo em que o chamado “espírito de Natal” não significava, como agora, o que favorece o lucro extraordinário do comércio nesta época do ano.

Na minha infância, nos dias de Natal e de Ano Novo, o jantar em família recebia o nome mágico e solene de Ceia. E a curiosidade não era só a despertada pelos possíveis presentes, mas também a de saber qual ou quais seriam os convidados do ano, se a avó vinda de longe e de trem, se um velho casal amigo ou algum solteirão distante da própria família, que costumávamos acolher para que não passasse a data sozinho.

Na véspera, era cômico e ao mesmo tempo dramático ver a cozinheira embebedar com cachaça o peru, – para que sua carne ficasse macia, explicava, – e quando ele já estava zonzo e cambaleante, a assustadora destreza com que torcia-lhe cruelmente o pescoço. Por isso, ao prazer de comê-lo do dia seguinte misturava-se sempre alguma culpa logo minimizada, porém, graças às conversas alegres, à iluminação especial da sala de jantar, ao brilho das velas e dos enfeites coloridos no pequeno pinheiro de armar, ao tinir das taças de champanhe, que só podíamos “provar”, e à efusão dos abraços à meia noite com os votos ressoantes de “Feliz Natal!”. Depois vinha o som dos papéis rasgados ao abrirmos rapidamente os pacotes dos presentes, e as lembrancinhas de última hora, que a delicadeza de minha mãe providenciava para oferecer ao convidado ou convidados da nossa casa.

E lembro que meu pai algumas vezes, com marota ironia, acrescentava à solenidade da festa a leitura do conto Missa do Galo, de um de seus deuses – Machado de Assis. Tal conto, como se sabe, tem muito pouco de missa e muito da elegante malícia machadiana ao narrar o primeiro alumbramento de desejo, de um rapaz de dezessete anos por sua hospedeira, uma senhora lânguida e misteriosa de nome Conceição, que lhe faz companhia, enquanto ele espera a meia-noite para ir à missa natalina, com um amigo. É claro que só entendi as sutilezas do conto de Machado muito mais tarde. Mas a lembrança de seu encanto e de seu mistério estará sempre vinculada aos natais da minha infância como um grande Sim à Vida.

(publicado dia 23.12.2014)

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