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CONTOS & CRÓNICAS – UM JANTAR EM CASA DE MAURÍCIO VILAR – por João Machado

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Hoje venho contar-lhe as peripécias do jantar de sexta-feira passada. Finalmente, a Maria da Luz veio a minha casa! E a minha mãe parece contente, o que é sem dúvida a parte mais interessante. Também lhe digo que, pela primeira vez, me sinto um pouco acanhado a escrever esta carta para si. Não sei explicar porquê. Talvez porque sinta estar perante uma situação nova, que não percebo bem. Conto consigo para me ajudar a ultrapassar o bloqueio que sinto. Ah, vai dizer que ando a usar umas palavras novas. Deve ser de ouvir os discursos que uma vizinha minha faz no café. Mora aqui na rua de Santo Ambrósio, no prédio logo a seguir ao meu. Parece muito boa senhora, só que fala que se desunha. Chama-se Otacília ou Otilinda, nunca consegui perceber, e parece que foi assistente social ou psicóloga. Fala realmente muito bem, e passa a vida a contar histórias sobre pessoas que não sei se alguma vez existiram, todas com grandes pancadas. Então uma vez pôs-se a falar sobreuma dessas pessoas, que ela dizia que tinha um bloqueio, quando a conheceu, e não saia de casa para absolutamente nada. Não trabalhava, não estudava, não ligava ao que se passava á roda. A Otacília ou Otilinda falava tão alto e voltada para mim de tal maneira, que cheguei a pensar que me queria apresentar à tal pessoa. E nunca mais se calava. O que me valeu foi que apareceu o marido, um tipo alto e gordo, que rosnava por entre dentes qualquer coisa assim:

– Sempre a meter-se onde não é chamada!

Ou outra coisa parecida. A Otacília ou Otilinda lá se calou. Mas deixe-me contar-lhe então o jantar de sexta-feira, em minha casa, com a Maria da Luz. Espero é que o meu amigo não me venha dizer que eu tenho um bloqueio. É verdade que sempre é mais simpático acharem-me bloqueado do que calão ou parasita. Pelo menos, é o que me parece.

Pois na sexta-feira tudo correu pelo melhor. Fui à faculdade logo a seguir ao almoço encontrar-me com a Maria da Luz, e cerca das quatro horas viemo-nos embora. Ainda passámos por casa dela (uma visita breve …), ela apanhou uma cestinha muito bem embrulhada, com uns lacinhos, que tinha em cima de uma cadeira, no hall de entrada, e apanhámos o metro. Subimos rapidamente até casa. Como tinha chovido, na Esplendorosa tinham recolhido as cadeiras, e não se via ninguém na rua. Subimos os dois andares no maior dos sossegos. A Heloísa já estava á nossa espera. Recebeu-nos com um grande sorriso:

– Já estava à vossa espera. Não apanharam chuva? Maria da Luz, tire o casaco. Maurício, põe o guarda-chuva na casa de banho. Abre-o para secar.

Entrámos para a sala. A Maria da Luz sentou-se no sofá, com a minha mãe. Eu sentei-me na beira de uma cadeira, junto à mesa, que já estava posta. As duas senhoras entabularam imediatamente conversa. E acrescentei mais uma surpresa às que tenho vindo a coleccionar ultimamente. Imagine o meu amigo que a Maria da Luz aprecia telenovelas e mais ainda, vê regularmente a Telhados De Vidro. Começaram imediatamente um debate sobre os méritos dos vários personagens e os desfechos que cada uma delas prevê para o enredo. Aqui, vou confessar-lhe uma coisa que julgo que nunca lhe disse: não consigo interessar-me por telenovelas. Acha estranho? Já tentei algumas vezes, até para ser agradável à minha mãe. Imagine que, normalmente, adormeço ao fim de pouco tempo.

Mas é que o jantar correu muito bem. A Heloísa tinha feito uma sopa de feijão verde, que estava excelente. Comemos um peixe grelhado, que salvo erro, era solha, com umas batatinhas, couves de bruxelas e bróculos, tudo na perfeição, aliás como sempre. Até bebemos vinho branco. A Maria da Luz, que não é grande garfo, adorou. Assim o declarou:

– Ah Heloísa! que rico jantarinho! – estava com um ar deliciado. Assumiu uma pose de grande descontracção. Reclinava-se para a minha mãe, com um ar derretido, que a Heloísa retribuía, ao que me parecia, com grande espontaneidade.

– Há muito tempo que não comia um peixe tão bom, aqui em Lisboa. Agora deixe-me abrir a cestinha que trouxe. É para a sobremesa. São uns doces da minha mãe.

– Oh! – respondia a Heloísa. – então foi-se incomodar.

– Nada. A minha mãe enviou-os especialmente para si.

– Que amabilidade, a da D. Belisária. Mas sabe que fiz um leite creme de propósito para a Maria da Luz experimentar.

– Ai que bom. Descanse que não se perde. Vamos a ele.

Só lhe digo que provei os doces e o leite creme. Fiquei que nem um lorde. Acho que a Maria da Luz, habitualmente muito atenta à dieta, neste jantar resolveu abrir uma excepção. Talvez para ser agradável para com a minha mãe. Acha que sim, que terá isso?

Depois do jantar, a Maria da Luz queria ir para casa, mas lá a convencemos a ficar mais um pouco. E claro, tragou (mas com um ar muito entusiasmado) o primeiro episódio da nova telenovela da Xique, A Rapariga e o Nababo. Seriam quase onze horas quando a fui levar a casa.

Acredite, o jantar foi um sucesso. A minha mãe e a Maria da Luz adoram-se, não tenho dúvidas. Sinto-me muito confortável a ver as duas à conversa. Temos de experimentar mais vezes. Desta vez não houve encontros desagradáveis. Nem com a Maria Antónia, nem com ninguém. Para a próxima vez, veremos.

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