CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR  VAI AO CINEMA  COM MARIA DA LUZ E CONTA O FILME A HELOÍSA – por João Machado

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Desculpe só lhe escrever hoje. Espero que não tenha estranhado um intervalo tão longo desde a última carta. Peço-lhe que não leve a mal. E que acredite que ando mesmo muito ocupado. Não me ache ingrato. É que tenho chegado a casa bastante tarde, janto, sento-me com a minha mãe a ver televisão e adormeço logo. Quando acordo, vou logo para a cama. Já percebi que a Heloísa acha imensa graça a este ritmo. Há dias disse-me assim:

– Estou contente por ver que a Maria da Luz te faz andar muito ocupado.

Disse aquilo com um sorriso tão amistoso, que me fez rir. Respondi-lhe que efectivamente, com a Maria da Luz, tenho estado a trabalhar muito. A frequência desta semana, felizmente, também correu muito bem. A minha mãe olhava-me com os olhos semicerrados, e acenava como a concordar com o que eu dizia. Foi então que resolvi contar-lhe como  tinha corrido a minha ida ao cinema, na véspera, com a Luzinha. Tínhamos acabado a frequência eram para aí quatro da tarde, e resolvemos ir lanchar na esplanada perto do estádio. Estava um tempo óptimo, e sentíamo-nos bastante cansados, mas muito contentes. Foi então que pensámos em ir ao cinema. Disse-me a minha amiga:

– Não me apetece ainda ir para casa. Sinto vontade de andar um bocado. E se fossemos ao cinema? Liga à tua mãe. Diz-lhe que vais mais tarde. Que hoje jantas comigo. Vá lá. Liga aqui do meu telemóvel. Não tem importância.

Eu anuí com boa vontade à proposta. Liguei pelo telemóvel e expliquei à Heloísa que a frequência tinha corrido bem, mas estávamos cansados. Que a Maria da Luz tinha vontade de ir ao cinema, e me tinha convidado. Disse ainda uma coisa que, acredite, há muitos anos lhe não dizia assim a frio. Que não ia jantar a casa. A Maria da Luz observava-me com atenção. Mas correu tudo bem.

O facto é que eu não ia ao cinema há mais de quinze anos, se não me engano nas contas. Percebe? Em casa, sempre com a televisão ligada… Sempre a passar filmes e novelas. E eu na realidade não aprecio lá muito, como já deve ter percebido. Recordo-me de uma vez, ainda tinha para aí uns dezasseis anos, a minha mãe, a D. Henriqueta, a D. Josefa, com os maridos de ambas, o Sr. Norberto, que ainda vivo na altura (mas de que maneira! sempre a catrapiscar as raparigas) e o Sr. Bráulio, não sei porque carga de água, decidiram ir ao cinema e levaram-me com eles. Como ia ficar em casa sozinho, e também não era apreciador de andar a jogar á bola com outros rapazes, não quiseram que ficasse em casa sozinho. Fomos a um cinema na Baixa, ver um filme de que toda a gente falava, de um tal Hitchcock (espero ter escrito bem o nome). Imagine um maluco que ao que parece não tinha mãe, resolveu matar uma rapariga que lhe apareceu lá em casa. Com uma navalha, calcule.  Não percebi o que teria acontecido à mãe do homem. Se calhar tinha levado também com a navalha. Essa parte já não cabia no filme, ao que eu percebi. Mas o que ainda percebo menos, é como se faz um filme daqueles, e toda a gente se põe a dizer que gosta. E como é que se gasta tempo e dinheiro a fazer um filme sobre um tarado a cortar o pescoço a uma rapariga toda gira, ainda por cima no banho. Eu, se visse uma beldade daquelas, em pelota, sei bem o que lhe havia de querer fazer… Não quero parecer burro ou ignorante, mas sinceramente, o tal Hitchcock precisava era de ir tratar-se da cabeça. E como a rapariga era gira! O meu amigo por acaso também terá visto o filme? Não me diga que gostou.

Bom, voltando ao presente, a Luzinha e eu fomos ver um filme sobre um casal (parece que afinal não eram casados), uma senhora e um senhor já não muito novos, pareceram-me até mais velhos do que eu, que resolveram, perdoe-me a terminologia, dar umas quecas. Desculpe a linguagem, não sei como lhe hei de contar de outra maneira. À Heloísa, limitei-me a dizer eles tinham tido “um encontro”. Não sei se ela percebeu a história. Olhou para mim e encolheu os ombros. Expliquei que não se conheciam antes, que o homem andava a tirar umas fotografias, e que a senhora tinha a família fora… Entretanto, os filhos dela descobriram a história, muitos anos depois, nuns papéis quaisquer que a senhora deixou. A Heloísa não me pareceu achar a história muito interessante. Sabe, também não lhe contei tudo assim tão abertamente. Ela realmente não me pareceu muito interessada. E bocejou umas duas vezes. A verdade é que nas telenovelas dela, há confusões muito maiores. E realmente, também lhe digo, fazer um filme de mais de duas horas só para contar que uma senhora e um senhor já entradotes resolveram rebolar, apesar de mal se conhecerem… Que temos nós a ver com isso? Ainda se fossemos rebolar também, enfim, talvez se percebesse. Sabe uma coisa, achei que a senhora até tinha um ar vivaço como a Maria Antónia. Mas a minha vizinha parece mais inteligente.

Felizmente consegui ver o filme todo sem adormecer, embora lhe diga que o achei bastante chato. Mas à Maria da Luz, que estava extasiada, e me disse ao fim ter adorado, disse que o filme não me tinha parecido nada mau. Está a compreender, não quis ser desagradável. Ela tinha querido tanto ir vê-lo. Que acha? Fiz bem?

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