Meu amigo, vai-me acusar de andar a escrever-lhe às prestações, e tem razão. É que a minha vida anda um pouco mudada. Também é por seguir os seus conselhos. Tem-me dito para me ocupar, ter mais consistência nos meus actos (ainda não percebi bem o que quer dizer com isso, tem que me explicar mais uma vez), e assim tenho-me esforçado por estudar, a ver se acabo o curso. Desde que comecei a andar com a Maria da Luz que deixei de ir à pensão da D. Generosa, para fazer o que sabe. É verdade que, de vez em quando, com a Maria Antónia… mas isso não conta, pois não? Começo a acreditar que vale a pena, mesmo andando mais cansado.
A pergunta que fiz á minha mãe no combóio para a Covilhã foi porque sinto realmente que tenho de me interessar mais por ela. Falou-me muito nisso, e confesso que me deixou um pouco perturbado. Tem-me dito que acha que não me tenho interessado por ela, que só a aturo porque não sou capaz de ter uma vida independente, trabalhar, ganhar dinheiro, em resumo, de me sustentar. E estou a tentar mostrar-lhe que não é assim. Interesso-me muito pela minha mãe. E não penso de modo nenhum em me separar dela. Não acha que isso mostra que me interesso por ela?
Bom, deixemos esse assunto para um dia em que estejamos cara a cara, para falarmos os dois directamente. Agora, vou passar a contar-lhe o resto da minha viagem. Minha e da Heloísa, que fique bem claro. E começo por lhe dizer que chegámos muito bem à Covilhã. Encontrámos logo a Maria da Luz à nossa espera, com o Sr. Tructesindo. Fizeram-nos uma festa enorme, e metemo-nos todos no carro, e fomos direitos para casa, por que fazia um frio terrível. Via-se neve nalguns telhados e o pouco pessoal que se via na rua tiritava. Foi num instante que nos pusemos em casa, onde estava muito quentinho. Encontrámos a D. Belisária a fazer sobremesas. E já um grande cabrito na mesa à nossa espera! Com umas batatinhas assadas… que maravilha!
Estivemos excelentemente. A D. Belisária estava sempre a querer encher-me o prato. Tive que resistir. A Heloísa ria-se, com um ar muito contente. A Maria da Luz contava a história do jantar fabuloso que tinha tido na rua de Santo Ambrósio. Quem a ouvisse, assim sem mais nem menos, diria que tinha sido o melhor jantar da vida dela. Garanto-lhe que o jantar de Natal foi realmente bom, mas aquele almoço à chegada à Covilhã foi ainda melhor. Talvez o apetite aberto pela viagem tivesse ajudado. E com a emoções que tive… A Heloísa furiosa comigo… Entretanto, a minha amiga sentou-se ao meu lado e começou a fazer-me umas festinhas… é melhor eu não entrar em pormenores.
Estivemos na Covilhã até ao sábado passado. A Heloísa teve um quarto só para ela, assim como eu. É verdade que nos levantávamos sempre cedo, mas à tarde toda a gente dormia a sesta. Com o frio que esteve, quase nunca saímos de casa. O Sr. Tructesindo um dia falou em levar-nos às Penhas Douradas, mas a Heloísa, friorenta como ela é, pediu por tudo que fossemos sem ela. Acabámos por ficar todos em casa. E claro, toda a gente a ver televisão sem parar. Aqui entre nós, excepto eu, que aproveitava para dormir a minha pestana. Realmente, se há coisa que não me cansa é dormir. Mas saiba, caro amigo, que a Maria da Luz e eu conseguimos fazer vários sessões de estudo. Eu tinha levado alguns livros e cadernos, e estudámos bastante. Pois claro, também aproveitámos para outra coisa, o que é quer? A casa é muito grande, entra-se e sai-se da sala sem ninguém dar por isso, e por aí a fora. O quarto da Maria da Luz é ao lado da sala, etc. Mas estudámos bastante, é verdade. Não foi só anatomia, não… Com essas gracinhas já parece a Maria Antónia. Só lhe digo que sinto muito mais preparado, agora depois destas ricas férias.
A noite da passagem de ano foi divertida. Só se estragou um bocadinho porque a D. Belisária achou que o Sr. Tructesindo estava a beber muito. Ele zangou-se um bocado, e disse que só tinha bebido dois copos de vinho. Pareceu-me que a Maria da Luz ficou muito preocupada com a cena. Por acaso, a mim pareceu-me que o pai dela tinha bebido pelo menos quatro copos de vinho, além de dois bagaços. Claro que fiquei mudo que nem uma pedra. A Heloísa olhava fixamente a televisão. Estava a dar uma telenovela, não sei qual delas. E acho que a minha mãe também não.
Tudo isso não impediu que bebêssemos umas taças de espumante à meia noite. E que fôssemos saudar os vizinhos de cima, um casal de velhotes, ainda mais avançados em idade que os pais da Maria da Luz. A Heloísa quis contar uma anedota, mas não se conseguia lembrar de como era. Começava por um homem que ia pela rua, e viu outro homem a jogar às damas com um cão. O primeiro homem disse ao segundo:
– Que coisa extraordinária! Um cão a jogar damas!
A Heloísa não se conseguia lembrar da resposta do segundo homem, mas o vizinho lembrava-se:
– Não tem nada de extraordinário. Ele perde quatro em cada cinco partidas.
Começámos todos a rir e só parámos depois da meia noite. A Heloísa ficou muito feliz. E eu também. A Maria da Luz também me pareceu contente. Todos estávamos contentes. Incluindo os pais dela e os vizinhos.
Temos estado assim. Voltámos para Lisboa na melhor das disposições e assim continuámos. Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa. Acho muito estranho este estado de coisas. Parece tudo tão contente. Hoje, antes de começar a escrever-lhe, assaltou-me uma dúvida, muito clara: Será que gosto de ser feliz? Como é possível?