Perdoe-me esta semana escrever tão tarde. Estive mais de uma semana sem lhe escrever, nem falar consigo ao telefone. É que tenho tido muito trabalho. Já o estou a ver daqui a rir-se, a pensar: “É para veres como é!”. Tenho de confessar que não tenho tido muitas alturas assim na minha vida. Espero que não tenha ficado preocupado com a falta de notícias.E que não me ache ingrato. Desde já lhe digo que me sinto bem, embora um tanto cansado.
Esta semana fui todos os dias à faculdade. Quando digo todos os dias, quero dizer sair de manhã e voltar à noite. Passei anos em que só lá ia de tarde, duas ou três vezes por semana no máximo. Desde que comecei a andar com a Maria da Luz, e sobretudo, desde que meti em cabeça que tenho de acabar o curso rapidamente, o meu ritmo alterou-se consideravelmente. Agora, está como nunca. Mas devo dizer-lhe que, por vezes, sinto vontade de parar um pouco.
No sábado, imagine, estive na faculdade quase todo o dia. A biblioteca está aberta de manhã, de modo que aproveitei para mais umas consultas. Deveria ter dito, aproveitámos, porque estive lá com a Maria da Luz, aliás como quase sempre. Chegámos logo às dez em ponto. A razão de tanto trabalho é a preparação para uma frequência na próxima quinta-feira. Se correr bem, fico bem lançado para o exame final. A Maria da Luz, felizmente, vai só para subir a nota. Aqui entre nós os dois, acho que ela vai mais para me apoiar. Vai dizer que estou a ser um pouco pretensioso, mas sinceramente é o que acho. É verdade, já me tem dito, que, embora nunca a tenha encontrado, percebeu logo que ela tem muita vontade, e quer sempre fazer melhor.Assegura-me que as minhas descrições e os relatos que lhe faço transmitiram-lhe essa ideia de uma maneira clara. Confesso-lhe que gostava de ter uma perspicácia, não digo tão grande, mas, ao menos, um pouco como a sua. A ver se conseguia compreender melhor as pessoas que me rodeiam.
Mas desviei-me do que lhe estava a contar. Almoçámos na cantina, estivemos na esplanada um bocado, sempre a estudar, e só às quatro horas é que fomos até casa dela. Esta semana só tínhamos lá estado duas vezes, acredita? Estivemos como habitualmente, isto é, muito bem. Mas consegue adivinhar o que aconteceu? Deviam ser quase umas seis horas, estava eu a pensar que tinha de me vir embora, toca o telefone. A Maria da Luz foi atender, e imagine quem era? Não vai acreditar. A Heloísa! Só percebi depois.O mais curioso foi que a minha amiga Luzinha (comecei a chamar-lhe assim há dias, e ela parece que gosta), gritou um oh!, como se estivesse muito surpreendida, mas depois meteu uma conversa que nunca mais acabava. Só percebi o que se passava quando a Luzinha desligou, se virou para mim, e disse-me com um ar muito divertido:
– Temos um convite para jantar!
– Como? De quem?
– Da tua mãe. Telefonou para me convidar a ir contigo.
Fiquei estupefacto. Mas tentei não parecer. Contudo, não consegui deixar de perguntar:
– Como é que ela sabia que estávamos aqui?
– Olha, não sei. Mas sabes, eu, uma vez, dei-lhe o meu número de telefone e disse-lhe para ligar sempre que quisesse. É muito simpático da parte dela, de qualquer maneira.
Pus um ar de grande alegria, e tive uma inspiração. Peguei na Maria da Luz ao colo, fi-la dar uma volta no ar, e pu-la no chão. Exclamei:
– Que bom! Vou jantar com a Luzinha!
Ela ria-se muito. Fomos todo o caminho até à Rua de Santo Ambrósio com muito boa disposição. Até demos uma corrida no caminho até ao metro, a ver quem chegava primeiro. Ainda pensei que, se a Susete Baião da secretaria nos visse, choraria a rir, a ver dois quadragenários, um quase quinquagenário (pois, sou eu) a correr como dois teenagers, como diria a D. Gertrudes Acabadinho, que gosta muito de usar palavras estrangeiras, embora só fale português, com sotaque de telenovela. Deixando de me preocupar tanto com o que pensam os outros, conforme outra das suas recomendações, reafirmo que foi uma viagem alegre. Chegámos ao meu prédio sem nenhum incidente de monta, e quando subíamos a escada, peguei outra vez na Maria da Luz ao colo, e ela deixou. Como vê, só euforia.
Não lhe escondo que o telefonema da minha mãe me deixou intrigado. Mas resolvi passar por cima do assunto. O jantar foi óptimo, e a seguir fui levar a minha amiga a casa. Para o tranquilizar, informo-o de que não vi a Maria Antónia, nem à ida nem à vinda. Quando cheguei a casa, a Heloísa lá dormia em frente à televisão, com certeza que já havia algum tempo, pois estava a dar uma coboiada, género que ela não aprecia. Vi o filme até ao fim, e apaguei a televisão. Acordou imediatamente.
– Boa noite, mãe. – disse-lhe
– Olá filho. – respondeu. – Gostaste do teu jantar?
– Muito, mãe. Foi uma excelente surpresa. Obrigado.
– Ainda bem que gostaste.
Ela sorria por todos os lados. Fomo-nos deitar. Não lhe perguntei nada sobre como lhe tinha surgido a lembrança do convite e como é que ela tinha calculado que eu estava com a Maria da Luz. Há coisas que não se perguntam, não acha?

