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EDITORIAL – A ausência de ideologia e a corrupção.

Imagem2«O actual Governo diz-se falsamente social-democrata. Mas obviamente que não é. Social-democrata significa ser de esquerda, como sempre foram Sá Carneiro e António Capucho. Ora o actual Governo é, como se tem visto, de extrema-direita, dirigido por uma coligação populista» – Estas são palavras de Mário Soares em artigo do Diário de Notícias de 25 de Março deste ano. Sá Carneiro e An0tónio Capucho social-democratas? E de esquerda?

Dispensamo-nos de referir as teses políticas que deram lugar à social-democracia, teses de inspiração marxista que Eduard Bernstein reformulou e acabou por «corrigir», recusando a inevitabilidade da revolução propugnada por Marx e Engels. De certo modo, compatibilizou o socialismo com o desenvolvimento capitalista e este como um meio de humanização da sociedade. Ou seja, a social-democracia pretendia atingir a justiça social através da evolução do capitalismo, sem rupturas violentas. Não vamos agora põr em causa a viabilidade desta compatibilização contra-natura. Considerar que Sá Carneiro e António Capucho defendiam esta tese, não será, contudo, um erro crasso?

Diluir a ideologia, compatibilizar princípios irreconciliáveis (como os de socialismo e capitalismo) é o caminho mais curto para um patamar em que a ideologia dá lugar ao pragmatismo e este abre portas à corrupção. Na edição da passada quarta-feira, o jornal francês “Libération”, num despacho do seu correspondente em Madrid diz em título: “Sócrates, a queda de um oportunista sem ideologia”. E descreve depois o modus faciendi do ex-primeiro ministro português, fala no”apartamento no valor de 2,8 milhões de euros, a frequência de restaurantes de luxo e as escutas telefónicas fizeram o resto”. Acusa acusa Sócrates de ser um político “duvidoso”, “sempre bordeline”, “sanguíneo, autoritário e de estilo cintilante à la Sarkozy” e diz que Sócrates destruiu o seu “retrato político bem merecido, de um cidadão honesto que serviu o seu país o melhor possível” e passou a ser o “líder duvidoso, esse produto mediático ou o politico Armani envolvido em vários escândalos dos quais conseguiu, de cada vez, escapar às garras da justiça”.

O «estilo cintilante à la Sarkozy» não tem sentido, é pura francomania, mas a ausência de ideologia é um tiro certeiro. Não entramos na roda das acusações gratuitas e entendemos que o mediatismo do caso Sócrates está a ocultar outros possíveis casos tanto ou mais escandalosos. Porém, a ausência de ideologia, crime que a acção da Justiça não abrange, está na base de um leque de crimes. Quando um destacado elemento socialista fala em proximidade ideológica entre PS e PSD e quando Mário Soares designa gente do partido herdeiro da União Nacional como social-democratas, a promiscuidade política, a dissolução da ideologia, escancaram as portas à corrupção.

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