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DIA DE ÉVORA – Tóquim Barreto! – (Évora na “fórmula” 1) por Joaquim Palminha Silva

Imagem1 Os valores são parte da matéria-prima da sociologia, porque integram a própria natureza humana e, como tudo o que diz respeito ao Homem, podem mudar…para melhor. Nesta ordem de ideias, o conceito de heroísmo pode mudar de direcção, e tomar um caminho de paz!

No dia 7 de Dezembro de 1954 (faz 60 anos!), a cidade de Évora acordou para homenagear um novo tipo de herói. Não se tratava de um guerreiro, de um general medalhado e sisudo, o herói que a cidade festejava era um jovem, chamava-se António Joaquim Borges Barreto, tinha 23 anos de idade e vencera a «VI Grande Volta a Portugal em Automóvel», ao volante de um porsche e percorrendo um total de 2.021 quilómetros.

 Nesse dia 7/12/1954 a sua chegada a Évora, Porta de Alconchel, foi uma apoteose: Tóquim Barreto, como carinhosamente lhe chamava a juventude da cidade, era aguardado por centenas de desportistas locais e população e, sobretudo, emoldurado pelos acordes esfusiantes da banda dos «Amadores Eborenses», que o esperava cerimoniosamente, dando ao conjunto um enquadramento que só recuando no remoto tempo (século XVI!) conseguimos encontrar algumas semelhanças. Levado em triunfo até ao Governo Civil, aí foi publica e institucionalmente felicitado.

Tóquim Barreto iniciou a sua actividade desportiva no «Sport Lisboa e Évora» na modalidade de badminton, destacando-se desde logo como campeão nacional (1953). Aos 18 anos de idade teve a sua «carta de condução» (facto raro na época). Filho de família abastada, adquiriu o seu primeiro automóvel, um Porsche, e com ele habilitou-se a uma séria e dura prova automobilística (chuvas, ventos, neves e lamas), com alguns troços de estrada muito perigosos. Disputou o 1º lugar com os grandes favoritos da época: Ernesto Martorell, D. Fernando de Mascarenhas, José Manuel Águia Pina e o experiente campeão nacional Filipe Nogueira. A cidade seguiu a prova pela rádio, foi, pois, aos microfones da então «Emissora Nacional» onde colheu a notícia de que Tóquim Barreto vencera a prova máxima do desporto automóvel em Portugal.

Em 1955, no «V Grande Prémio de Portugal», Borges Barreto, como lhe chamava a imprensa desportiva, foi o único português a chegar ao fim da prova e, apesar de uma avaria mecânica na máquina, “fez figura” entre veteranos estrangeiros, com carros mais potentes e afinados que o seu Ferrari. Escreveu então o Jornal de Notícias (27/6/1955): «E assim o jovem piloto, ao ser envolvido por uma avalanche de gente, foi alvo duma manifestação do género das que se fazem aos campeões e vencedores». Em Setembro deste mesmo ano, no «Grande Prémio de Lisboa (Monsanto)», Tóquim Barreto completa 53 voltas ao circuito, desistindo por lhe saltar uma roda quando ia a 140 km/h, mesmo frente às tribunas, demonstrando perícia e sangue frio surpreendentes, dominando o carro e evitando desastre de maiores proporções, o que lhe valeu as felicitações dos organizadores da prova.

Em 1956, no «Grande Prémio do Porto», Tóquim Barreto, que sofreu uma derrapagem perigosa, alcançou apenas o 4º lugar, mas distinguiu-se sobre todos como verdadeiro e fraterno desportista. Nesta prova, saiu ferido o piloto veterano Filipe Nogueira. Na prosa d’O Primeiro de Janeiro (17/6/1956), eis como ficou impresso o comportamento do herói da juventude eborense: «Concluída a corrida […], saltando do carro e correndo como um gamo, Borges Barreto, o nosso melhor representante, dirigiu-se para o lado do Castelo do Queijo, onde tomou lugar num automóvel particular, a fim de ir ao Hospital informar-se do estado de Filipe Nogueira. Belo gesto de camaradagem…». Poderemos dizer que um verdadeiro espírito olímpico habitava Tóquim Barreto!

Em Setembro de 1957 encontramos Tóquim Barreto a correr com para a marca Ferrari, nas «5 horas de Messina» (Itália), perigosa prova nocturna, alcançando um honroso 3º lugar e a «Taça dos Novos», com um “Ferrari 750 Monza”. Sobre esta prova, e entrevistado pelo jornal Mundo Desportivo, Tóquim Barreto, conservando memória emocionada do momento, disse: «Depois da corrida, subiram a bandeira americana e tocaram o hino respectivo. Depois o italiano… Quando vi subir a nossa bandeira e começaram a tocar a “Portuguesa”, não consegui dominar a comoção e chorei, chorei como uma criança! Era Portugal que transbordava do meu coração!».

            A Ferrari, após aturado exame às qualidades do piloto eborense, contrata-o (1957) para participar em nome da marca na “prova das provas”, nas célebres e temíveis «24 horas de Le Mans», a realizar no mês de Junho, ao volante de um Ferrari, baptizado «Testarossa», veículo que desenvolvia 195 CV. a 6.500 r.p.m., e apresentava as quatro rodas todas independentes. E foi assim que o Tóquim Barreto dos eborenses, para esta prova de gabarito internacional, só possível para experimentados pilotos, sem talvez se aperceber do feito, acabava “forçando” Portugal, pela primeira vez, a entrar na competição maior da modalidade, a «Fórmula 1»!

O raro e impressionante cortejo fúnebre de Tóquim Barreto, destacando-se na multidão conjuntos de jovens e agremiações desportivas da cidade e do País.

            Tóquim Barreto cultivava o sentimento da gratidão e do respeito pela experiência, adquirida pelos mais velhos, pelo que escolheu para seu co-piloto o veterano Filipe Nogueira. Tudo corria bem quando súbito, a 30 de Maio de 1957, António Joaquim Borges Barreto, em plena prova do «Grande Prémio de Saint-Étienne», numa curva denominada «maison rouge», é vítima de um aparatoso acidente que lhe causa morte imediata!

            O bólide do veterano Piero Carini despistou-se a 200 km/h., mudou de direcção, saltou a pequena vedação construída pela dividir a pista a estrada ao meio, e foi apanhar de frente, em cheio, o carro de Tóquim Barreto… que ficou partido em dois! Ambos os corpos dos corredores ficaram dilacerados…

            A notícia da tragédia chegou breve à cidade que, consternada, parecia não querer acreditar no fim de uma tão gloriosa corrida rumo à vitória. A chegada dos restos mortais do piloto a Évora e o seu cortejo fúnebre para o Cemitério dos Remédios, constituíram uma das maiores manifestações de espontâneo carinho popular de que há memória. O recorte das suas qualidades de homem e de desportista é-nos dado por um texto da revista Flama (30/5/1958), um ano após o seu falecimento: «Homem de boa formação moral, nunca se deixou vencer pela obsessão do prémio, o que criou à volta do malogrado campeão extraordinária simpatia, à qual sempre soube corresponder e de que nunca se julgava merecedor. Modesto por natureza, repugnava-lhe a vaidade. Não foi um “aventureiro” da estrada. Tudo era feito com ponderação e respeito absoluto pelas regras do trânsito e pelo seu semelhante».

 

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