CARTA DE ÉVORA – “Fragmentos…” – por Joaquim Palminha Silva

 

evora         Normalmente a paciência aconselha-se aos outros…Para nós não, que temos pressa! – A paciência só presta quando se tem vagar. Mas quem é que tem vagar?!

Ainda hoje não consigo perceber a razão por que se chama de paciente a um pobre enfermo.

A paciência não é propriamente uma nação… Mas existe um território onde os nativos são monótonos e quietos: – Aí, a paciência é o espaço do conformismo, a absorção que queima, em sono lento e tóxico, de todos os radicalismos…

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            Herói? – Ninguém quer aturar um “perturbador” da rotina! Ninguém está para viver a confrontação da inquietude espiritual…

A actualidade quer heróis de desenho animado, consoladores, a viver o que todos gostam de viver ou ver outros viverem. A actualidade não tolera um herói marcado pelas rugas da coerência. A sociedade quer uma maquilhagem a viver dentro de um cenário. Quer um “show” obediente, repleto de posses e atitudes, como a “promoção do dia” no supermercado. O herói actual não é mais do que um objecto manipulável, próprio para as conveniências do Estado e do Kapital!

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            A Democracia reservou um castigo para a apatia do cidadão: – A existência do político profissional, a proliferação dos mercenários!

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            Não sei como aconteceu. Mas sei que se processou uma reviravolta no pensamento português. Baralharam-se as ideias e a opinião instalou-se como corrente de substituição do pensamento. Sem dúvida mais acessível e menos trabalhosa, pouco exigente em termos de lógica e, por isso, mais fácil de desbobinar, a opinião chega mesmo a prostituir uma ou outra ideia filosofante… – Mas trata-se do rapto de ideias gerais, adaptações abastardadas, intrujices.

A opinião é o macaco da Filosofia!

O facto é que a opinião abriu carreira a muito charlatão, espécie de empresário de jogos de palavras, colecionador de “ditos espirituosos”… – Aconteça o que acontecer, e lá vem a inevitável opinião!

O resultado final das opiniões? – Um campanário paroquial com cem repiques. Há de facto muito barulho de palavras a cair, mas não se produz um pensamento original!

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Há montanhas de circunstâncias, oportunidades e conveniências a emparedar a esperança!

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Foi criada uma atmosfera em que ninguém dúvida da possibilidade de manter a Nação e continuar a vida, mesmo medíocre, carente. Ninguém presta atenção à morte lenta do País através da falta de gente, envelhecimento da maioria sem substituição e, sem retorno, partida para o estrangeiro dos mais jovens e aptos, às dezenas de milhar por ano! – Portugal está em coma, mas ninguém se apercebe!

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